domingo, 29 de dezembro de 2013

Cátaros, Albigenses e Valdenses (uma história que precisa ser contada ou, porque deixei de ser católico) – Parte 1/2


"E respondeu-me, dizendo: Esta é a palavra do Senhor a Zorobabel, dizendo: Não por força nem por violência, mas sim pelo meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos." (Zacarias 4:6)

O fato é que, para os perseguidores religiosos militares e para inquisidores católicos que os seguiram na história, as congregações de crentes denominadas de “os valdenses”, “os cátaros” e “os albigenses”, eram todos uma mesma coisa: hereges, enquanto significavam efetivos obstáculos às suas políticas de poder centralizado e de domínio distribuído, que incluía intolerância a quaisquer opiniões ou doutrinas que discordassem de uma posição oficial.

Porém, uma olhada mais atenta aos registros históricos remanescentes, pode apontar para detalhes que revelam algumas consideráveis diferenças entre tais grupos. Todavia, antes de tudo, é preciso deixar claro, também, algo que eles tiveram em comum: tais diferentes denominações (Cátaros, Albigenses e Valdenses) não foram colocadas pelas próprias pessoas relacionadas a tais grupos, pois eles se recusavam tomar qualquer nome sobre si, com exceção de "cristãos" ou "irmãos".

Em primeiro lugar, existiam disseminados pela Europa ocidental, pequenos grupos de crentes que haviam se separado da cristandade organizada, desde antes mesmo do tempo do imperador romano Constantino dar os primeiros passos em prover para a Igreja cristã de Roma uma presença institucional dentro no Estado, a partir do ano 317, mas não sem influenciar em grande parte, na inclusão nesta mesma igreja, de dogmas baseados nas tradições daquele mesmo Estado.

Quando se tornou imperador de Roma, no ano de 249, Décio observou com desconfiança o poder crescente dos cristãos, e determinou-se a reprimi-los. Ele construiu novos templos pagãos, reforçou os cultos e sacrifícios do passado em todo o império. Porém, vendo as igrejas cheias de prosélitos e os templos pagãos esvaziados, decidiu empreender uma perseguição generalizada, tanto contra ao clero, quanto aos leigos do cristianismo.

Durante as perseguições de Décio, o Papa Fabiano foi um dos primeiros a sofrer o martírio (início do ano 250), porém, ocorreu que vários cristãos batizados negaram a sua fé em Cristo e alguns chegaram a realizar sacríficios aos deuses pagãos durante o período da perseguição; Quando, dois anos depois o imperador foi morto e as perseguições cessaram, estes quiseram retornar à comunhão cristã.

Surgiu ai o termo Lapsi (caduco), que foi o termo utilizado para denominar aqueles apóstatas que, quando eram perseguidos pelo Império Romano renunciavam à sua fé mas, uma vez cessada a perseguição, queriam voltar atrás. Com a sede vacante de Roma depois do martírio do Papa Fabiano, a necessidade de eleger um novo papa, associada as necessárias deliberações sobre a questão se aqueles apostatas poderiam ou não ser reintegrados a igreja e a forma como tal reintegração poderia se dar, gerou uma certa confusão e muitas disputas dentro da igreja.

As disputas eram agravadas pelo fato que, entre os apóstatas podia se contar com muitos líderes, pessoas influentes do clero da própria igreja, capazes de realizar gestões em favor de sua própria causa. Tais circunstâncias fizeram surgir um primeiro grande sisma: de um lado se levantou o Padre Novaciano, que exigia uma posição de rigor de critérios para aceitar os ex-cristãos arrependidos de volta e, do outro lado, a posição oficial da igreja, a partir da eleição de Cornélio como novo papa, no ano 251, que foi a de que os apostatas poderiam voltar ao corpo da igreja e ministrar os sacramentos, desde que o fizessem seguindo o ritual correto, sem a necessidade de rebatismo ou de reordenação.

Porém, depois de alguns anos, sob o imperador Diocleciano, deu-se início a uma nova onda de perseguições aos cristãos (do ano 303 até o ano 311), a última, maior e mais sangrenta perseguição oficial implementada pelo império contra o cristianismo, e a história se repetiu novamente. Muitos cristãos cederam às pressões e caíram em apostasia novamente.

Mesmo alguns bispos de então colaboraram com o Estado perseguidor, surgindo, dai, o emprego do termo traditores (traidores), para designar os apostatas que cederam livros religiosos às autoridades, para serem destruídos, conforme exigia o édito do imperador. Mais uma vez, muitos quiseram voltar atrás depois de cessada a perseguição. Dai, as questões associadas a tal assunto foram sendo sempre tratadas de uma forma tropega pela igreja oficial, ora com grande rigor, ora com total liberalidade, reflexo de que as decisões, recheadas de controvérsias, eram calcadas por influências políticas.

O padre Novaciano foi morto em uma daquelas perseguições e, após a sua morte, os seus seguidores se espalharam rapidamente e podiam ser encontrados em diversas províncias romanas, em grande quantidade em algumas delas. Eles eram chamados pela igreja oficial de novacionistas, mas chamavam a si próprios de καθαροι (em grego: "katharoi" - "puritanos" ou "puros"), refletindo que se mantinham puros durante perseguições e seu desejo de se manterem cristãos, mas separados da igreja oficial, não se misturando com o que consideravam práticas frouxas de uma igreja corrupta e subservientes a poderes mundanos.

Além disso, desde o início da idade média, existiu uma contínua corrente migratória de irmãos que, uma vez sendo perseguidos no oriente, como os denominados paulicianos (grupo de cristãos considerados hereges pelo catolicismo, que floresceu entre os anos de 650 e 872 na Armênia e partes orientais do Império Bizantino, como Anatólia e os Balcãs, até serem massacrados pelo  Império Bizantino, que foi a continuação do Império Romano durante a Antiguidade Tardia e a Idade Média) e os bogomilos (que surgiram, posteriormente, no que é hoje a Macedônia), ambas seitas pregando a igualdade social e o afastamento dos pobres do domínio do clero e da nobreza, imigravam e, ao chegarem ao ocidente europeu, entraram em contato com as igrejas dos cátaros.

Assim, vários séculos depois, o termo cátaro ainda voltaria a ser usado, agora pela própria igreja oficial de Roma, para designar o grupo considerado de dissidentes, que surgiu na região centro-sul da França, na verdade, como uma forma pejorativa de seus perseguidores se referirem a eles, por causa do costume dos seus pregadores itinerantes de venderem todas as suas propriedades e se fazerem assim "perfeitos" para seguir o Senhor e pregar o evangelho, tomando literalmente o conselho do Senhor em Mateus 19:21:

"Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, e segue-me."

Por outro lado, o termo “albigense” apareceu já na alta idade média, em meados do século XII, na cidade francesa de Albi, onde grupos de milhares de irmãos (dos quais, nem todos eram, verdadeiramente, cristãos), foram mortos a espada ou queimados em fogueiras sob a acusação de heresia maniqueísta (embora isto não pudesse ter sido provado).

A partir de então, acostumou-se a associar os irmãos do sul da França com o termo “a heresia de Albi” e, dai o nome “albigenses”, ainda em conjunção com a denominação “cátaros”, passou a se aplicar aos grupos de irmãos que floresceram no sul da França e norte da Espanha e mesmo do norte da Itália, estes também conhecidos por “valdenses”.

A corrupção generalizada que uma grande parte da cristandade oficial então perpetrava, motivada por ostentação de poder político e econômico, levou, em um curto período de poucas décadas, irmãos cristãos sinceros a apartar-se dos seus males e abusos.

Entre esses irmãos se destacaram homens de grande zelo espiritual, que denunciaram abertamente os males da cristandade e ganharam um considerável número de seguidores para uma fé mais bíblica e singela, entre os quais se destacam Pedro de Bruys, Henrique de Cluny e Pedro de Valdo, este último que daria origem a um novo grupo de cristãos sinceros, os quais viriam também a ser perseguidos, chamados de “valdenses”.

Por isso, ao longo da história dos irmãos esquecidos, encontraremos sempre, lado a lado com a fé genuinamente bíblica, sempre distinta, algumas crenças realmente heréticas e distorcidas. Este fato, unido à ilimitada ambição da cristandade organizada por ser considerada a única e verdadeira "igreja de Cristo", contrastando com atitudes que denotavam o mascaramento de pretensões de poder político mundano, a levou a perseguir infatigavelmente os cristãos dissidentes que não reconheciam a sua “autoridade oficial”, deformando e destruindo, quase que completamente, os registros de sua passagem pela história.

De modo lamentável, isso teve algum certo grau de êxito em fazer de muitos daqueles valentes irmãos, "hereges", ainda aos olhos de outros sinceros irmãos que vieram depois. Esta é a trágica história daqueles mártires que corajosamente levantaram o estandarte de Cristo na hora mais obscura da fé.

Nesta primeira parte desta dissertação, eu darei ênfase à história dos “cátaros” e dos “albigenses” e, na parte que virá posteriormente, talvez maior que esta primeira, será dedicada, exclusivamente, a narrar a saga dos cristãos valdenses, os primeiros dentre os povos da Europa a obter a tradução das Sagradas Escrituras. Centenas de anos antes da Reforma, possuíam a Bíblia em manuscrito, na língua materna.  Tinham a verdade incontaminada, e isto os tornava objeto especial do ódio e perseguição.

Origens da Dissensão Religiosa na Europa Medieval:


O rápido aumento do comércio, no século XI, trouxe consigo grandes mudanças nas estruturas socioeconômicas da Europa medieval. Surgiram cidades para abrigar o crescente número de artesãos e mercadores. Isto deu margem a novas ideias. A dissensão religiosa arraigou-se na província francesa de Languedoc, onde prosperava uma civilização notavelmente mais tolerante e avançada do que em outros lugares da Europa.

O sul da atual França, na região antigamente conhecida como “Ocitânia” e que hoje é denominada “Languedoc” – ambos os termos significando “terra da língua do sim” - surgiu o movimento fundamentalista cristão (ou, que no mínimo pretendia, sinceramente, ser cristão), pacífico, que via no exemplo de vida de Jesus, simples e sem luxo algum, a base para a sua doutrina. Acima de tudo, a palavra de ordem entre eles era a humildade - desprezando a soberba, a arrogância e os valores mundanos.

A cidade de Toulouse, em Languedoc, era a terceira metrópole mais rica da Europa. Era o mundo em que prosperavam os trovadores, cujos poemas, entre outras coisas, às vezes aludiam a assuntos políticos e religiosos. Descrevendo a situação religiosa nos séculos XI e XII, a Revue d’histoire et de philosophie religieuses declara: “No século XII, como no século anterior, a moral do clero, sua opulência, sua venalidade e sua imoralidade continuavam a ser questionadas, mas acima de tudo se criticavam sua riqueza e seu poder, seu conluio com as autoridades seculares e sua subserviência a estas.”


Foi neste contexto que Pedro de Bruys, enquanto ainda era um padre católico, começou a sua pregação e viajou infatigavelmente por mais de vinte anos, percorrendo diversas províncias da França: em Delfinado, Provença, Languedoque e Gasconia. Multidões de pessoas assistiam as suas pregações em que denunciava abertamente o uso de imagens, a veneração a Maria, o batismo de recém-nascidos e a doutrina da transubstanciação dos sacramentos, como costumes da igreja que eram contrários às Escrituras.

Para escutá-lo, as pessoas deixavam os serviços religiosos oficiais e se reuniam em qualquer ponto onde ele estivesse. Como também não reconhecia a autoridade da Igreja organizada, foi detido e açoitado em 1116. Pedro de Bruys renunciou ao sacerdócio porque não conseguia conciliar com as Escrituras os ensinos católicos. Também acreditava que as cruzes e outras relíquias também não deveriam ser objeto de veneração por parte dos crentes. Ele as estava queimado publicamente na praça de Saint Gilles, entre 1126 e 1131 quando uma turba da população católica local, irritada lançou-o nas chamas da própria fogueira. Não obstante, os seus seguidores continuaram com a sua obra e com o tempo se uniram ao resto dos irmãos perseguidos.

Henrique de Cluny continuou com a obra de Pedro de Bruys, de quem foi discípulo. Este era monge e diácono do famoso monastério de Cluny. Possuía uma grande capacidade de oratória e um aspecto físico imponente. Mas era, além disso, um homem extraordinariamente devoto e inflamado de zelo espiritual. Suas pregações atraíam milhares de pessoas, e produziam centenas de conversões, entre elas, as de alguns reconhecidos pecadores, que mudavam radicalmente as suas vidas. O avivamento que ele ajudou a acender se estendeu rapidamente por todo o sul até o meridional da França.

Os líderes da igreja organizada se encontravam intimidados e até aterrorizados diante do poder da sua pregação, e não se atreviam, a princípio, a fazer nada contra. Foi tão grande o seu impacto nessas regiões que grande parte dos templos e monastérios ficaram abandonados.

Finalmente, Bernardo de Clarvaux, um dos homem mais poderosos da Europa, foi chamado para detê-lo. Este era um homem de caráter santo e devoto, cujos hinos em honra a Cristo são lembrados até hoje. No entanto, neste assunto, ele atuou com todo o mesmo zelo da cristandade oficial, pois considerava Henrique o pior dos hereges, um demônio saído direto do próprio inferno.

E com respeito aos irmãos, que se negavam a reconhecer a sua identidade com homem algum, inclusive com Henrique de Cluny ou Pedro de Bruys, queixava-se: "Inquiram deles o nome do autor da sua seita e não a atribuirão a ninguém. Que heresia há, que, entre os homens não tenha o seu próprio heresiarca?... Mas, por que sobrenome ou por qual título arrolam eles a estes hereges? Porque a sua heresia não se derivou do homem, nem tampouco a receberam de um homem". Sua conclusão foi que, consequentemente, tinham recebido o seu ensino dos demônios!

Henrique se viu forçado a fugir de Bernardo, e continuou com o seu infatigável trabalho, até que foi finalmente preso e condenado a um destino desconhecido (talvez ser emparedado vivo, ou a pena de morte) em Toulouse. Os irmãos, não obstante, continuaram adiante com o seu valente testemunho e passaram a formar parte daqueles grupos de irmãos perseguidos, conhecidos por seus inimigos como “cátaros” e “albigenses”.

Diferente da dos cristãos evangélicos valdenses, as crenças dos cátaros, embora se ajustassem a fé cristã em alguns pontos, agregavam, de fato, uma farta mistura de dualismo oriental e de gnosticismo, talvez importadas por mercadores e missionários estrangeiros. The Encyclopedia of Religion define o dualismo cátaro como crença em “dois princípios: um bom, que governa tudo o que é espiritual, o outro, mau, responsável pelo mundo material, inclusive pelo corpo do homem”. Os cátaros acreditavam que Satanás criou o mundo material, irrevogavelmente condenado à destruição. Sua esperança era a de escapar do mundo mau, material.

Muitos ensinos cátaros estavam em flagrante contradição direta com a Bíblia. Por exemplo, eles acreditavam na imortalidade da alma e na reencarnação e baseavam também suas crenças em textos apócrifos. Não obstante, no que se refere às partes das Escrituras traduzidas pelos cátaros para o vernáculo, línguas de domínio público, até certo ponto tornaram a Bíblia um livro mais bem conhecido na Idade Média.

Os cátaros estavam divididos em duas classes, os perfeitos e os crentes. Os perfeitos achavam que eram os sucessores legítimos dos apóstolos, de modo que se chamavam de “cristãos”, enfatizando isso por acrescentar “verdadeiros” ou “bons”. Na realidade, porém, muitas crenças cátaras eram alheias ao cristianismo. Embora os cátaros reconhecessem a Jesus como o Filho de Deus, rejeitavam o fato de ele ter vindo em carne, bem como seu sacrifício resgatador.

Interpretando erroneamente a condenação bíblica da carne e do mundo, acreditavam que toda a matéria se originou do mal. Por isso, sustentavam que Jesus só podia ter tido um corpo espiritual e que, enquanto na terra, apenas parecia ter um corpo carnal. Iguais aos apóstatas do primeiro século, os cátaros eram ‘pessoas que não confessavam Jesus Cristo vindo na carne’. — 2 João 7.

Todavia, isso não poderia ter sido considerado um problema tal que não pudesse ter sido resolvido por meios verdadeiramente cristãos de pregação e de ensino bíblico, coisa que faltava totalmente ao povo da época, na medida inversa em que a igreja oficial se preocupava muito mais com a ostentação de poder político e econômico no mundo.

Até mesmo o Papa Inocêncio III (a partir de 1198) chegou a reconhecer que se devia à corrupção prevalecente dentro da Igreja a culpa pelo crescente número de dissidentes e aos pregadores itinerantes na Europa, em especial no sul da França e no norte da Itália. A maioria dos que haviam, ou era de cátaros ou de valdenses. Ele repreendeu os sacerdotes por não instruírem o povo, dizendo: “Os filhos têm falta de pão, que vós não quereis repartir com eles.”

No entanto, em vez de promover a educação bíblica do povo, Inocêncio afirmou que “a profundeza da Escritura divina é tal, que não somente os simples e iletrados, mas até mesmo os prudentes e os instruídos, não são plenamente capazes de tentar entendê-la”. A leitura da Bíblia foi proibida a todos, exceto aos clérigos, e depois foi permitida apenas em latim.

Para contra-atacar a pregação itinerante dos dissidentes, o papa Inocêncio III, que já havia declarado a "heresia" como crime de lesa-majestade e condenado as traduções não autorizadas da Bíblia para o francês, em 1203 enviou dois monges cistercienses da Abadia de Fontfroide para ensinar aos Albigenses na França a fé e os ensinamentos católicos: Raoul de Fontfroide e Pierre de Castelnau, um inquisidor da ordem do cister que se conduzia com a intransigência de um juiz seguro da lei que aplicava.

Em dezembro dirigiram-se a Toulouse, onde fizeram jurar ao conde que extirparia a heresia. Em fevereiro de 1204 aconteceu uma reunião em Béziers presidida pelo rei Pedro II de Aragão. O rei reconhecera-se vassalo da Santa Sé mas, quanto ao pedido dos legados, manifestou que não estava disposto a usar a espada contra os seus vassalos ocidentais.

Uns meses mais tarde Arnaud Amaury, abade de Cîteaux, incorporou-se à delegação, mas ainda com o reforço de Arnaud Amaury os legados não obtinham sucessos, porquanto a sua apresentação não era a mais adequada, pois percorriam o país em luxuosos carros de cavalos acompanhados por todo um cortejo de servidores, quando precisamente o luxo e a suntuosidade era o que mais reprochava o povo occitano à igreja romana.

Em maio de 1206 os abades decidiram regressar às suas respetivas abadias, porém, no caminho de regresso fizeram uma parada em Montpellier e ali coincidiram com dois castelhanos que regressavam de Roma. Eram Diego de Acebes, bispo de Osma, e o seu vice-prior, Domingos de Gusmão, posterior fundador da Ordem dos Frades Pregadores, ou Ordem Dominicana.

Os legados expuseram as suas dificuldades: quando pregavam, eram objetados por conta do comportamento detestável dos clérigos, mas se dedicavam-se a reformar os clérigos, teriam de renunciar a dedicar tempo à pregação. Os castelhanos expuseram uma solução: pôr de lado a reforma dos clérigos e dedicar-se exclusivamente à pregação mas, para que esta fosse eficaz, era preciso que cumprisse uma condição imperativa: a pobreza, ou seja, viajar com humildade, ir a pé, sem dinheiro, em duplas, imitando os costumes dos Perfeitos cátaros e que antigamente fora utilizado pelos apóstolos.

Os próprios Diego de Acebes e Domingos de Gusmão colocaram a prática desse método que eles propuseram a prova e, pouco a pouco, conseguiam os seus efeitos, convertendo crentes cátaros e até mesmo alguns Perfeitos. Em contraste com o opulento clero católico, eles atuaram como pregadores viajantes, ainda que comissionados a defender a ortodoxia católica contra os “hereges” no sul da França.

Contudo, Diego regressou para Osma e Domingos de Gusmão escolheu, então, como companheiro a Guillem Claret, clérigo de Pamiers, com quem se instalou em Fanjeaux, no centro da região, onde converteram um grupo de Perfeitas e mulheres crentes cátaras, instalando-as no Mosteiro de Prouilhe, perto de Fanjeaux, tornando o num centro educacional e hospitalar de garotas, a semelhança das "Casas das Perfeitas".

Os sucessos de Domingos de Gusmão manifestavam a eficácia dos seus métodos. Entretanto, tratava-se de uma pregação longa e trabalhosa que exigia modéstia e paciência, Domingos de Gusmão parecia plenamente adaptado para aquela situação, mas não os legados papais cistercienses que aguardavam uma conversão massiva e entusiasta e, em lugar disso, tinham de seguir, em conjunto, aquele método de ir de povoação em povoação, enfrentando a oposição dos contra-pregadores cátaros, que ocasionalmente demonstravam conhecer o Evangelho melhor que os seus próprios clérigos.

Assim, a campanha em 1207 era sentida, na verdade, como um insucesso pelos legados papais que, originalmente, haviam sido enviados para argumentar com os cátaros e para tentar trazê-los de volta ao aprisco católico, rapidamente. Neste clima, com a heresia em pleno auge e a crescente humilhação da Igreja Romana frente da passividade e conivência dos senhores occitanos, somente faltava uma chispa que servisse de argumento a Inocêncio III para tomar as armas.

Enquanto Domingos e os outros cistercienses se dedicavam a pregação do Evangelho, o legado papal Pierre de Castelnau tomou a iniciativa de expor um acordo geral de paz a todos os condes e senhores do Languedoque, pedindo que se comprometessem a não empregar judeus na sua administração (para evitar empréstimos que não fossem eclesiásticos), devolver o dinheiro não pago às igrejas em forma de tributo, e, sobretudo, perseguir os hereges cátaros pela força.

Ao conde Raimundo VI de Toulouse era impossível aceitar tais condições sem quebrantar os fundamentos do seu poder, de modo que ele se negou e, por isso, foi excomungado a 29 de maio de 1207, excomunhão que foi ratificada, meses depois, numa reunião em Saint-Gilles.

Então, eis que a chispa que faltava chegou: A 14 de janeiro de 1208, Pierre Castelnau foi assassinado quando se dispunha a cruzar o rio Ródano, ao voltar da reunião de Saint-Gilles, ainda em território dos Albigenses.

Não obstante o fato de que não se pode comprovar que o assassinato tenha sido ordenado por Raimundo, o Papa Inocêncio III acusou-o abertamente, e toda a responsabilidade caiu, não apenas sobre ele, as suas terras, e sobre os senhores feudais occitanos com os quais o Conde de Toulouse mantinha algum tipo de vínculo mas, também, e principalmente, sobre todo o povo daquela região de condados.

Visto que "os esforços falharam" e, até mesmo um dos legados católicos foi morto (supostamente por um herege), alterou o foco das missões, que passaram  a incluir a violência, enquanto a cruzada militar iria substituir a cruzada pacífica. A 9 de março de 1208, o Papa dirigiu uma carta a todos os arcebispos do Languedoque e a todos os condes, barões e senhores do reino da França. Um fragmento daquela carta dizia:

"Despojai os hereges das suas terras. A fé desapareceu, a paz morreu, a peste herética e a cólera guerreira cobraram novo alento. Prometo-vos a remissão dos vossos pecados se puserdes limite a tão grandes perigos. Ponde todo o vosso empenho em destruir a heresia por todos os meios que Deus vos inspirará. Com mais firmeza ainda que com os Sarracenos, pois são mais perigosos, combatei os hereges com mão dura."

Inocêncio III ordenou em 1209 a Cruzada Albigense: o papa pronunciou um anátema contra Raimundo VI, o conde de Toulouse e declarou as suas terras "entregues como presa". Isto equivalia a uma chamada direta a Filipe II Augusto, rei da França, bem como a todos os condes, barões e cavaleiros do seu reino para acudir à cruzada.

Albi era uma das cidades onde os cátaros eram especialmente numerosos, de modo que os cronistas da Igreja oficial chamavam os cátaros de albigenses (em francês: albigeois) e usavam o termo "albigense" para designar todos os que consideravam “hereges” daquela região, inclusive, até mesmo, os cristãos valdenses do Piemonte (norte da Itália). Curiosamente, a primeira concentração de tropas dos exércitos da cruzada do papal de Inocêncio III (20 000 cavaleiros, mais de 200 000 cidadãos e camponeses, sem contar o clero.) aconteceu na cidade de Lyon

Poucas décadas antes, em 1179 um zeloso grupo composto de homens e mulheres da cidade de Lyon, que mais tarde passaram a ser chamados de valdenses, pediram ao então papa, Alexandre III, uma licença especial para continuar seus trabalhos de pregação do Evangelho, que foi negada. A Igreja achou aquele evento tão perturbador que, em 1184, aqueles cristãos da cidade de Lyon, foram excomungados pelo papa e expulsos de suas casas pelo então bispo de Lyon. Como eles já eram naturalmente desapegados de casas e de outros bens materiais, aquela medida, na realidade, serviu apenas para dar a oportunidade de divulgação da mensagem da Bíblia em outras regiões.

Notem, ainda, que este mesmo período foi marcado pelo surgimento de um outro movimento singular, mas da mesma motivação, quando Giovanni di Pietro di Bernardone, mais conhecido como São Francisco de Assis, entrou para orar na igreja de São Damião, fora das portas da cidade, e ali, diz a tradição, ele ouviu pela primeira vez a voz que chamou a sua atenção para o estado de ruína de sua Igreja e instou para que Francisco a reconstruísse. A princípio Francisco tratou de trabalhar de pedreiro, pois, em sua ignorância acreditou tratar-se de prédios precisando de reformas.

Todavia, não era. Tratava-se de algo muito mais grave: era a religião do cristianismo contaminada, a Igreja de Jesus se tornara numa instituição corrompida, conduzida pela mais absoluta ganância humana por poder mundano.

Giotto: Francisco e seus companheiros diante de Inocêncio III, 1297-1299.
Basílica de São Francisco de Assis, Assis.
No mesmo ano em que as tropas da cruzada papal, sob o comando de Simon de Montfort posicionaram-se diante da cidade de Béziers (a primeira de muitas que vieram em seguida), para ataca-la exterminando uma parte da população sem levar em conta a sua filiação religiosa e pronunciando, segundo a crônica de Cesáreo de Heisterbach, a frase: "Matai-os todos, Deus reconhecerá os seus!", ceifando de sete a oito mil vidas, Francisco, tendo reunido mais um grupo de seguidores de Assis, dirigiu-se para Roma a fim de obter do papa a autorização da primeira Regra para a fundação de sua Ordem, a chamada Regra primitiva, que prescrevia uma pobreza absoluta para os monges e para a Ordem, em imitação literal da vida de Jesus Cristo e seus apóstolos, conforme narrada nos Evangelhos.

Segundo o cronista inglês Matthew Paris, lá chegando, sujos e vestidos pobremente, foram ridicularizados pela corte de Inocêncio III, que mandou não aborrecê-lo com sua Regra, considerada excessivamente rigorosa e impraticável, e que fosse pregar entre os porcos. Tendo-o feito num chiqueiro próximo, coberto de lama voltou para o papa, que refletindo um momento, decidiu recebê-los em uma audiência formal, depois que se lavassem. 

Francisco e seus amigos se prepararam então para esse outro encontro, conseguindo o apoio de prelados eminentes para a sua causa. Segundo relatos antigos, nesse ínterim Inocêncio teve um sonho, onde viu a Basílica de São João de Latrão prestes a desabar, apenas sustentada por um pobre religioso, que ele interpretou como sendo Francisco.

Com a recomendação favorável de alguns conselheiros e com o aviso recebido em sonho, Inocêncio finalmente autorizou a Regra, porém, não por escrito, nem outorgou o estatuto de Ordem ao grupo, apenas permitiu que pregassem e dessem socorro moral às pessoas, mas acrescentando que se eles conseguissem frutos de seu trabalho, voltassem a ele para que sua situação fosse completamente regularizada.

A regularização só viria a partir de 14 anos após esse encontro, com o texto da Regra primitiva já tendo resultado em profundamente alterado, com a maioria das citações do Evangelho e as passagens poéticas removidas e substituídas por fórmulas legais, impostas pela hierarquia eclesiástica romana e pela pressão de parte de seus próprios companheiros, essas mudanças pouco refletiam o espírito original franciscano. 

Francisco via a si mesmo como o mensageiro de um mandado divino, crendo que a Regra primitiva não podia ser alterada sem traição a Cristo que o inspirava e que era a autoridade suprema a ser considerada, a quem o próprio papa devia subordinação. Contudo, ao que parece, Cristo não falava ao papa nem aos monges, somente ele ouvia sua voz, e assim, inevitavelmente, sua credibilidade e a propriedade de sua intransigência eram postas em dúvida.

Segundo os relatos, a Regra bulada (Regra primitiva profundamente alterada) só foi aceita por Francisco por força da obediência que ele devia ao papa como líder da Igreja, da qual jamais quis afastar-se, mas submeteu-se, com grande pesar, e os seus primeiros biógrafos referem este período como o da sua "grande tentação", a de abandonar todo o trabalho. Por fim aceitou o fato consumado, e entregando os frutos para Deus, pacificou-se.

A cruzada contra os albigenses:


O importante despertar espiritual daqueles anos entre os irmãos, teve o seu epicentro na região conhecida como o Meridional da França, especialmente em Languedoque. Ali multidões de homens e mulheres de todas as classes e condições, incluindo nobres e bispos do clero, somaram-se às filas dos irmãos, e as suas congregações cresceram em um número alarmante aos olhos da hierarquia da cristandade oficial.

Em 1167 foi realizada uma conferência de mestres que congregou irmãos de todas as partes da Europa, inclusive de Constantinopla. Ali estavam os paulicianos, cátaros, albigenses, bogomilos, reunidos simplesmente como irmãos, sem aceitar nenhum dos apelidos que os seus caluniadores lhes colocavam. Relataram do avanço da obra em lugares tão distantes como a Romênia, Bulgária e Dalmácia. E este fato nos ajuda a visualizar a amplitude e alcance do despertar espiritual que eles protagonizaram naqueles anos.

O povo comum, cansado das exigências extorsivas e da generalizada decadência do clero da Igreja oficial, sentiu-se atraído pelo modo de vida dos cátaros. Os perfeitos identificavam a Igreja Católica e sua hierarquia com a “sinagoga de Satanás” e “a mãe das meretrizes”, de Revelação (Apocalipse) 3:9 e 17:5. A doutrina dos cátaros prosperava e suplantava a Igreja no sul da França. Nessa região, devido à influência dos irmãos, desenvolveu-se a civilização mais rica e próspera da Europa.

Finalmente, o Papa Inocêncio III decidiu acabar por completo com os 'hereges', depois de fracassar em suas tentativas de convencer, mediante os seus legados, aos albigenses, pois estes se negaram a reconhecer outra autoridade além das Escrituras, e à cristandade organizada como a "verdadeira noiva de Cristo". Tentaram, então, convencer o conde de Provença e outros governadores das províncias do sul da França para que o apoiassem em seus intentos de aniquilação dos "hereges".

Por meio de cartas e de legados, o papa importunou reis, condes, duques e cavalheiros católicos da Europa. Prometeu indulgências e as riquezas de Languedoc a todos os que lutassem para erradicar a heresia “de qualquer modo”. No entanto, frente à resistência de suas pretensões, convocou uma cruzada de extermínio contra os albigenses e as províncias do Meridional francês.

A reação do Papa Inocêncio III foi lançar e financiar a chamada Cruzada Albigense, a primeira cruzada organizada dentro da cristandade contra pessoas que afirmavam ser cristãs. Sua convocação não deixou de ser atendida. Chefiado por prelados e frades católicos, um exército misto de cruzados, procedentes do norte da França, de Flandres e da Alemanha, dirigiu-se ao sul, ao vale do Ródano.

Centenas de milhares se uniram à cruzada convocada pelo Papa, atraídos pelas riquezas que ficariam a mercê da pilhagem e da devastação. Liderada pelo terrível Simon de Monfort, soberano da nobreza anglo normanda, a cruzada contra os albigenses devastou o sul da França até reduzi-lo a mais completa desolação. Um após o outro, os pacíficos povos do sul foram tomados e todos os seus habitantes passados ao fio da espada.

Em Minerva, Monfort encontrou 140 irmãos cátaros, que negaram a abnegar-se de sua fé, por isso foram entregues às chamas de uma grande fogueira que ele mesmo preparou no centro do povo. Em Beziers, vendo rodeada a cidade e compreendendo que toda resistência seria inútil, o conde Rogélio, junto com o bispo, saiu para pedir clemência para as mulheres e meninos e ainda para aqueles que não eram 'hereges', pois nem todos nela eram cátaros (ou albigenses). A resposta de Simon de Monfort foi: "Matem a todos. Deus reconhecerá os seus".

Naquele dia de verão, em 1209, foi massacrada a população de Béziers, no sul da França. O frade Arnaud Amalric, nomeado legado papal líder dos cruzados católicos, não mostrou nenhuma misericórdia. Quando seus homens perguntaram como distinguiriam os católicos dos "hereges", relata-se que ele, juntamente com Monfort, deu a infame resposta acima citada. Historiadores católicos atenuam-na para rezar: “Não se preocupem. Acho que muito poucos [hereges] serão convertidos.”

Não importa qual a resposta exata, o resultado foi a matança de pelo menos 20.000 homens, mulheres e crianças pelas mãos de uns 300.000 cruzados, chefiados por prelados da Igreja Católica. A destruição de Béziers marcou apenas o início duma guerra de conquista que destruiu Languedoc numa orgia de fogo e de sangue.

A sangrenta cruzada se estendeu por cerca de vinte anos: Albi, Carcassonne, Castres, Foix, Narbonne, Termes e Toulouse caíram todas diante dos sanguinários cruzados, até devastar totalmente o país. Em 1211 caiu Albi e em 1221, Toulouse e Avinhon. Seus habitantes tiveram a mesma sorte de todos os outros, e foram passados ao fio da espada.

Em baluartes cátaros, tais como Cassès, Minerve e Lavaur, centenas dos perfeitos foram queimados na estaca. Segundo o frade cronista Pierre des Vaux-de-Cernay, os cruzados, "com alegria de coração, queimaram vivos os perfeitos". Em 1229, depois de 20 anos de lutas e devastações, Languedoc passou a ficar sob a coroa francesa. Mas a matança ainda não acabara.

O que provocou esse massacre? Ele foi apenas o começo da Cruzada Albigense, lançada pelo Papa Inocêncio III contra os chamados hereges da província de Languedoc, no centro-sul da França. Antes de ela terminar, possivelmente um milhão de pessoas — cátaros, valdenses e até muitos católicos — haviam perdido a vida, irmãos que morreram, pela guerra ou queimados na fogueira.

No entanto, os poucos que conseguiram sobreviver, fugiram para diferentes países levando consigo a sua fé e testemunho. Não obstante, a cristandade oficial não retrocedeu em seu esforço por destruir “a heresia albigense”. No Concílio de Toulouse, em 1229 foi criada a Inquisição, com o fim de continuar a perseguição em cada recanto da Europa. E a Inquisição completou a obra inconclusa da cruzada contra as províncias do Meridional francês. Deste modo, a civilização de Provença foi extinta por completo.

Apesar de tudo, a fé dos irmãos não morreu. Em qualquer lugar que fossem, tornaram a levantar o testemunho de Jesus Cristo, agora aprimorado pelo sofrimento da perseguição. Por toda a Europa, numerosos irmãos saíam da cristandade organizada, e aqui e acolá tornavam a aparecer, para em seguida ocultar-se, durante os terríveis séculos em que a Inquisição exerceu o seu império.

Em 1231, o Papa Gregório IX instituiu (oficialmente) a Inquisição papal, a fim de dar apoio à luta armada. Com o lançamento da bula “Excomunicamus”, estabelecia a nova forma de ação do início do sistema inquisitorial. Basedo em denúncias e em coações, buscando as confissões dos hereges em julgamentos eclesiásticos, os encarregados de tais missões eram as “cortes” chamadas genericamente de Tribunal do Santo Ofício.

Os que pensavam de forma contrária ao “bom senso” reinante, estariam sujeitos à perda de propriedades, da liberdade e da própria vida - sua e daqueles que os protegessem. A nova diretriz aproveitava para proibir a manutenção de Bíblias nas casas de pessoas comuns. 

Porém, já a partir de 1233, o mesmo Gregório IX lançou duas bulas que efetivaram as ações do Tribunal do Santo Ofício. Destaca-se a bula “Licet et Capiendos”, dirigida aos Dominicanos. Ela determinava que estes seriam os responsáveis pelas ações contra os suspeitos. Ordenava que não poupassem métodos para obter as confissões e exigia apoio do poder secular, privando os pecadores dos benefícios espirituais com severas censuras eclesiásticas.

A punição oficial por heresia era a morte por queima na estaca. O fanatismo e a brutalidade dos inquisidores foram tais, que irromperam revoltas em Albi e em Toulouse, e em outros lugares. O medo e o terror brutalizou a alguns a ponto de, em Avignonet, todos os membros do tribunal inquisitorial serem atacados e mortos.

Em 1244, a rendição da montanha fortaleza de Montségur, último refúgio de muitos perfeitos, foi aplicado o golpe mortal à doutrina dos cátaros. Cerca de 200 homens e mulheres pereceram queimados em estacas. No decorrer dos anos, a Inquisição caçou os cátaros remanescentes. O último cátaro supostamente foi queimado na estaca em Languedoc, em 1330. O livro Medieval Heresy menciona: “A queda do albigensismo foi a principal medalha da Inquisição.”

No ano de 1252, o Papa Inocêncio IV publicou o documento “Ad Extirpanda”, autorizando o uso de tortura física para se obter as confissões. As torturas sistemáticas tinham o objetivo de erradicar aquilo que nem a espada nem a lei haviam conseguido destruir. Além de trazer uma série de orientações aos inquisidores, continha uma frase que resumia bem os ânimos da época: “os hereges devem ser esmagados como serpentes venenosas”. 

O conjunto de ações direcionadas a inquirir, ou questionar o comportamento dos desgarrados, ficou conhecido como “Santa Inquisição”, nome que se tornou sinônimo de tortura, horror e irracionalidade. Os juízes da Inquisição — na maioria frades dominicanos e franciscanos (justamente aquelas Ordens que, em suas origens, tiveram causas em comum com as dos hereges) — estavam sujeitos a prestar contas apenas ao papa.

Por viverem em terras que ficavam além da jurisdição de Roma, os cátaros, assim como outras congregações de cristãos que existiram por muitos séculos, permaneceram quase inteiramente livres da corrupção papal. Estavam rodeados de pagãos e, no transcorrer dos séculos, foram afetados por seus erros; mas continuaram a considerar a Escritura Sagrada como a única regra de fé, aceitando muitas de suas verdades.

Os cátaros estavam longe de serem cristãos perfeitos mas, será que por criticarem a fragorosa corrupção da Igreja Católica justificaria seu extermínio cruel pelas mãos de pretensos cristãos?Provavelmente homens, aparentemente, ainda piores do que eles? (digo "aparentemente" pois, gostando ou não, todos nós julgamos pelas aparências, coisa que o próprio Senhor Jeová nos alerta, diversas vezes, por meio de toda Escritura).

Ao que tudo indica, seus perseguidores e assassinos católicos desonraram a Deus e a Cristo, e difamaram o verdadeiro cristianismo, por torturar e massacrar essas dezenas de milhares de dissidentes. Mas isso tudo apenas teve o efeito prático de fazer com que as pessoas que protestavam contra o que era mal pudessem aperfeiçoar a sua fé cristã, corrigindo paulatinamente os desvios que neles haviam a princípio.

Após arrefecer a fúria cruzada, os sobreviventes passaram a pregar como faziam os primeiros cristãos: em catacumbas, cavernas e nas florestas. Isto porque a cruzada albigense, apesar de sua brutalidade atroz e, como devia ser de se esperar por parte daqueles realmente entendem o mover de Deus sobre a humanidade, não havia sido suficiente para exterminar todos os indivíduos, muito menos ainda os seus ideais.

Até que por fim, com o advento da Reforma, saíram novamente à luz, e se encontravam em centenas de milhares, dispostos a escrever um novo capítulo de sua heroica história, encontrando-se unidos à própria Reforma, ou tomando parte da reforma mais radical, com o nome de anabatistas (rebatizadores), a chamada "ala radical" da Reforma Protestante.

Fé é escolha e nisso consiste o livre arbítrio. Todo ser humano tem o direito a essa escolha: de ter ou não um Deus e o de escolher a qual Deus servir, sem ser importunado pelos demais humanos. Todavia, àquele que escolhe ser cristão, deve se lembrar: não há cristianismo que não seja, também, bíblico e não há algo bíblico que não seja também cristão. Querer dissociar uma coisa da outra é uma das artimanhas mais modernas do diabo. Cristão e bíblico, ou você é, ou não é. Não existe meio termo.

"Não podereis servir ao Senhor, porquanto é Deus santo, é Deus zeloso, que não perdoará a vossa transgressão nem os vossos pecados. Se deixardes ao Senhor, e servirdes a deuses estranhos, então ele se tornará, e vos fará mal, e vos consumirá, depois de vos ter feito o bem." (Josué 24:19-20)

Não obstante, nem todo saldo da perseguição ao catarismo desembocou em uma forma cristianismo mais pura e singela mas, sim, resultou, também, por culpa do alto grau de terror a que a população em geral esteve sujeita, em um tipo de distorção muito mais proeminente, e que chega a nós, com grande força, até os dias de hoje: a franco-maçonaria e o seu veio principal de religiosidade, que resulta da fusão do cristianismo primitivo com a mitologia egípcia (uma escola gnóstica, portanto, não cristã, com o intuito alegado de prestar auxílio à evolução espiritual da humanidade).

Uma postagem em um importante site maçônico do Brasil expõem o seguinte:

"Certamente, a aproximação entre os Cátaros e nossa Sublime Ordem se estabelece de forma direta, em uma relação simples de causa e efeito. Sem a existência de todos os eventos aqui estudados, talvez faltasse motivação para que os Irmãos do passado se dedicassem tanto à criação e fortalecimento das Colunas seminais da Loja. Os germes das escolas iniciáticas, formadas por homens livres que necessitavam de proteção mútua, se lançavam ao custo de muito trabalho, sangue e dedicação, neste alvorecer da Humanidade. 

Podemos afirmar que, se o Catarismo não tivesse ocorrido - assim como sua aniquilação sangrenta posterior - talvez a mais perfeita das associações humanas nunca tivesse existido. Foi esta tese, perturbadora e fascinante, que nos levou a pesquisar sobre o assunto."

Já, quanto a mim e a minha pesquisa postada, espero que os leitores entendam que eu não estou pretendendo, aqui, imputar culpa aos católicos de hoje, sejam estes do meio do povo ou do meio do clero da igreja católica, pelas ações criminosas e injustificáveis praticadas no passado, por membros diretores da igreja na qual eles congregam.

Todavia, as atrocidades e os erros praticados pelo corpo governante da instituição conhecida por igreja católica romana, têm sido tantos e tão graves tem o seu peso e, ocorrendo de forma recorrente em tantas épocas distintas da historia que eu, depois de ter tomado alguma ciência deles, mesmo tendo sido batizado como católico por meus pais e avós, não poderia mais, de modo algum, continuar confiando nela, ou acreditando na sinceridade dos princípios que ela declara.

Assim, como Deus tem me tornado livre e tem me dado a necessária provisão para uma escolha de minha parte quanto a isso, então eu decidi deixar de ser católico, desde os 19 anos de idade, em 1981, e me converti ao protestantismo (ou evangelismo).

Eu assim escolhi, até por que, eu descobri o evangelismo com um ramo do cristianismo, assim como a videira tem muitos ramos, dotado com uma doutrina diferente da católica e, ao meu modo de ver, muito mais condizente com o que a Bíblia realmente ensina: que a salvação é dada através da graça e bondade de Deus, na qual cada pessoa pode se relacionar diretamente com seu Criador, sem a necessidade de outro intermediário que não seja o próprio Senhor Jesus.

Além do mais, os protestantes se declaram seguidores do Evangelho - um dos seus princípios durante a Reforma era o da Sola Scriptura (do latim que significa "Só a Escritura"). Isso significava que, para os protestantes, apenas a Bíblia é fonte de revelação suprema, e que, até que retorne a nós aquele "o qual convém que o céu contenha até aos tempos da restauração de tudo, dos quais Deus falou pela boca de todos os seus santos profetas, desde o princípio" (Atos 3:21), não deveria ser permitido à Igreja alguma fazer doutrinas fora dela.

Conhecer a Bíblia com perspicácia não torna o mundo melhor para mim mas, me torna melhor para o mundo, para a glória de Deus.

Até a próxima e, graça e paz!

Veja também:

Cátaros, Albigenses e Valdenses (uma história que precisa ser contada ou, porque deixei de ser católico) – Parte 2/2 

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Este trabalho de André Luis Lenz, foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição - NãoComercial - CompartilhaIgual 3.0 Não Adaptada.
 
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