sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Um Breve Histórico dos Conflitos entre a Europa e o Oriente Médio



A Europa, nomeadamente a Grécia Antiga, é considerada o berço da cultura ocidental. O uso do termo "Europa" desenvolveu-se gradualmente ao longo da história. Na antiguidade, o historiador grego Heródoto. que apesar de ser grego havia nascido em Halicarnasso, hoje Bodrum, na Turquia, em provável referência a mapas desenhados por Hecateu de Mileto (546 a.C. ~ 480 a.C.), de quem Heródoto foi continuador, descreve o mundo conhecido da época como tendo sido dividido em três continentes, sendo eles a Europa, a Ásia e a Líbia (África).

No entanto, os gregos não eram os viajantes e exploradores mais destacados da época. Tal honra ostentavam os fenícios, menos letrados que os gregos e, portanto, menos específicos, entre os quais Hanão. Os fenícios viveram na região que hoje chamamos de Oriente Médio, mais especificamente, ao longo das regiões litorâneas dos atuais Líbano, Síria e norte de Israel. A civilização fenícia foi uma cultura comercial marítima empreendedora que se espalhou por todo o mar Mediterrâneo durante o período que foi de 1500 a.C. a 300 a.C.

O Oriente Médio fica na junção da Eurásia, da África, do mar Mediterrâneo e do Oceano Índico. É o local de nascimento e centro espiritual do cristianismo, do islamismo, do judaísmo, e de várias outras religiões. Ao longo de sua história, o Oriente Médio tem sido um grande centro de negócios do mundo, uma área estratégica econômica e politicamente, e cultural e religiosamente sensível.

O moderno Oriente Médio surgiu após a Primeira Guerra Mundial, quando o Império Otomano, que havia sido aliado dos derrotados Impérios Centrais (a Alemanha e a Áustria-Hungria), foi dividido em vários estados. Outros acontecimentos marcantes nesta recente transformação foi a restabelecimento do Estado de Israel, em 1948, e a saída das potências europeias, nomeadamente a Grã-Bretanha e a França, que foram suplantadas em parte pela crescente influência dos Estados Unidos.

Atualmente, vários meios de comunicação veiculam episódios tristes que atestam a recorrência de confrontos entre os povos do Oriente e do Ocidente. De fato, analisando sob o ponto de vista histórico, podemos notar que estas duas regiões do planeta foram marcadas por experiências distintas, mas também por influencias mútuas. Contudo, seria possível afirmar que as diferenças e os conflitos, que persistem. simplesmente se resumem à relação entre as religiões que se desenvolveram nestes dois lados do planeta?

Muitos associam que os confrontos entre os povos do Oriente (mais especificamente do Oriente Médio) e do Ocidente (mais especificamente da Europa), se desenvolveu, tão somente, como um conflito entre cristãos e muçulmanos (ou islâmicos), e chamam a atenção para os movimentos cruzadista e, também, jihadistas, quando estes têm o significado de levar a cabo uma guerra pela fé contra os infiéis, chegando ao extremo das ações de terror, tanto da parte de supostos professos cristãos, quando muçulmanos.

O objetivo desta explanação é mostrar que o conflito existente entre os povos da Europa e do Oriente Médio é pré-existente ao islamismo e, até mesmo ao cristianismo, e que ele decorre da relação entre os grandes impérios da antiguidade, notadamente, o Impérios romano e os Impérios remanescentes dos Persas, além de conflitos ainda mais antigos, ocorridos vários séculos antes do Senhor Jesus ter vivido como homem.

Mapa do Mundo conhecido a partir do século V a.C., representação romana do desenho original de Hecateu de Mileto
A cadeia de conflitos entre os povos do ocidente e o oriente, de fato passou pela sua fase de conflito entre "cristãos" e "muçulmanos" e, as aspas que eu emprego aqui é para denotar que, apesar de a religião quase sempre ter sido usada como pretexto para guerras, muitas vezes tal pretexto foi empregado. tão simplesmente, para esconder a ganância, a vaidade, a cobiça e as ambições humanas, enquanto características espirituais humanas fluem e realizam as suas típicas empresas, por meio do uso de poderes imperiais que são instituídos pela humanidade, em seu próprio seio.

Tal cadeia de conflitos que ainda está em curso nos dias de hoje é, deveras, historicamente a mais antiga da humanidade. Ela passou pela "Primeira Cruzada", que foi proclamada em 1095, pelo papa Urbano II, com o objetivo duplo de auxiliar os cristãos ortodoxos do leste, e o de libertar Jerusalém e a Terra Santa do jugo muçulmano. Curioso foi que tal cruzada foi levada a cabo, apesar de os líderes da Igreja do Império Bizantino, que  também professava a fé cristã, mas seguiam o rito ortodoxo, e os lideres da Igreja de Roma, terem se excomungado mutuamente, por conta do chamado Grande Cisma do Oriente.

A Primeira Cruzada  se desdobrou em múltiplos movimentos, com ações bélicas de inspiração religiosa, que incluiu a "Cruzada Popular", a "Cruzada dos Nobres" e a "Cruzada de 1101", todas, de fato, sangrentas e pilhadoras (e depois vieram, ainda, a 2ª, a 3ª e a 4ª cruzadas).  Além disso, ela deu início a uma longa tradição de violência organizada e explicita também contra os judeus, apesar de já há séculos existir anti-semitismo, quase sempre de forma velada, na Europa.

Para os cristãos verdadeiros, envolvimento do termo “cristãos”em guerras cruéis, de cunho político e de interesses econômicos, tais como eram as motivações para as guerras que foram denominadas “cruzadas”, foi uma péssima ideia, algo historicamente lastimável. Tentar apresentar tais guerras como "guerras santas" equivaleu a tentar justificá-las por pretextos, e não por seus reais motivos, embora que o termo “guerra santa”, de fato, seja um jargão também originário do mundo dos muçulmano, como um ideal próprio que os impulsionou a conquistarem novas terras através dele, por meio da pressão imposta aos povos vizinhos que, ou se convertiam ou eram forçados a conversão, denominado “jihad menor”.

Todavia, os conflitos em questão,  não começaram ai, com as cruzadas, mas antes:

No século VIII, a cidade Barcelona foi conquistada pelo vizir árabe al-Hurr e iniciou-se um período de quase um século de domínio muçulmano, que terminou em 801, quando foi ocupada pelos carolíngios. Os carolíngios a converteram em capital do Condado de Barcelona. Porém, a potência econômica da cidade, e a sua localização estratégica fizeram com que os muçulmanos voltassem em 985, comandados por Almansor, ocupando-a, durante alguns meses, saqueando a cidade, incendiando os edifícios que eram destruindo até às fundações, as igrejas e a muralhas, além de matarem milhares de pessoas, e de escravizarem e transportarem para sul outra parte da população.

Eu particularmente penso que, só isso que foi narrado acima já deveria ter bastado para que parasse com os conflitos, uma vez que os povos compreendessem que, além do sofrimento resultante das hostilidades, nada mais poderiam resultar deles: Deveras, não poderá haver lado vencedor. Porém, infelizmente, os conflitos e hostilidades nunca mais cessaram.

Contudo eu afirmo a vocês que as hostilidades em questão, também não começaram ai. Assim, vamos voltar ainda um pouco mais no tempo, para tentar compreender se foi mesmo por causa de Barcelona que todo esse conflito começou.

Bem, é evidente que, antes do século VII a religião dos muçulmanos sequer existia, de modo que, se os conflitos forem anteriores, a origem deles pode não ser encontrada nos anseios de algum muçulmano que tivesse, algum, dia passado por Meca. Como eu pretendo demonstrar, tal origem é ainda mais antiga. e pode incluir acontecimentos que ocorreram mais cedo durante o Império Bizantino.

O Império  Bizantino foi a continuação do Império Romano durante a Antiguidade Tardia e a Idade Média, no oriente, inicialmente, fazendo parte do lado oriental do Império Romano (frequentemente chamada de Império Romano do Oriente). Sua capital foi Constantinopla (hoje a moderna Istambul), originalmente conhecida com Bizâncio. 

No ano de 285, o imperador Diocleciano dividiu a administração imperial romana em duas metades, e entre 324 e 330, após a conquista definitiva da cidade, Constantino transferiu a capital principal de Roma para Bizâncio, renomeando-a Nova Roma. Em homenagem a ele a cidade passaria, mais tarde, a ser conhecida como Constantinopla ("Cidade de Constantino"), enquanto o cristianismo passava a gozar mais e mais da preferência imperial, uma vez que Constantino concedeu-lhe generosos privilégios.

Por uma série de razões, mas que envolve, principalmente, ao fato do Império Romano do Oriente  preferir negociar acordos frente as ameaças de invasões “barbaras”, enquanto Roma preferia tentar enfrentá-las militarmente, o lado oriental do Império prosperava e se fortalecia, enquanto o lado ocidental declinava, sucumbindo ao alto custo de sua manutenção militar, até que no ano de 480 o lado oriental achou por bem tomar conta de tudo, com o rei Zenão, de Constantinopla, abolindo a divisão do império e tonando-se imperador único.

Odoacro, por sua vez, embora investido do título de rei, agora apenas governador da Itália, foi nominalmente subordinado de Zenão I, o imperador do Império reunificado. Todavia, Odoacro atuou com completa autonomia e acabou por apoiar uma rebelião contra o imperador. 

Para recuperar a Itália, Zenão negociou com o rei dos ostrogodos da Mésia, Teodorico, a quem enviou como mestre dos soldados da Itália (magister militum per Italiam), a fim de depor Odoacro. Teodorico chegou com seu exército à península Itálica em 488, onde venceu a Batalha de Isonzo e a de Milão (489) e a de Adda, em 490 e assediou Ravena. Este foi assassinado pelo próprio Teodorico durante um banquete em 493.

Teodorico, então, aproveitando-se de seu sucesso agiu, também, de modo independente e assassinou Odoacro, fundando, em seguida, o Reino Ostrogótico, do qual tornou-se rei, embora tal reino nunca tenha sido reconhecido como tal pelos imperadores orientais. Teodorico foi um governante hábil, que soube conservar o equilíbrio entre as instituições imperiais e as tradições bárbaras. Homem culto, educado na corte de Constantinopla, capital do Império Romano do Oriente, conseguiu ganhar a simpatia da aristocracia romana, cujos privilégios anteriores respeitou, e do povo, que assistia satisfeito à realização de obras públicas para a reconstrução e modernização de Roma. 

Após a morte de Teodorico, o imperador bizantino Justiniano I que não reconhecia a legitimidade do Reino Ostrogótico, invadiu a Itália, em 535,  com exército sob o comando do general bizantino Belisário, iniciando a "reconquista" da península itálica pelo Império Bizantino, que levaria quase duas décadas e seria mais destruidora que as invasões bárbaras dos dois séculos anteriores. Esse período foi denominado de Guerra Gótica.

Diante disso, já dá para começar a desconfiar, seriamente, que a origem dos conflitos entre o ocidente e o oriente (e não apenas entre "cristãos" e "muçulmanos", uma vez que, apesar de os cristãos já terem se multiplicado em número de pessoas dentre os povos, o islã ainda nem sequer existia no período cuja história do Império Bizantino foi relatado acima) tenha sido uma consequência da inconsequência do próprio Império Romano (o que isenta o islamismo de tê-los iniciado).

Abrangência do Império Romano do Oriente (ou Império Bizantino), no ano 600 d.C. (época da eminência do surgimento do islamismo)
Além disso, é notório que houveram, também, as chamadas Guerras Romano-Persas, que foram uma série de conflitos militares entre o Estado romano e os sucessivos impérios iranianos: a Pártia e a Sassânia. No tempo do  imperador bizantino Justiniano I, ao mesmo tempo em que seus generais se empenhavam contra os ostrogodos para reaver a Itália, as tropas do Império Romano do Oriente estavam, também, empenhadas em uma guerra contra os sassânidas da Pérsia.

A Pérsia, com um grande desenvolvimento cultural e militar, tornou-se um inimigo natural de Roma, e manteve-se como tal por vários séculos. Os romanos viram nos persas uma potência semelhante à deles próprios, e os grandes reis de Ctesifonte (uma grande cidade da Mesopotâmia e capital do Império Arsácida, um termo que provém de nome do rei Ársaces I da Pártia) viam os romanos da mesma forma. 

Os persas já há muito tempo denominam seus soberanos como "grande rei", o que lhes atribui uma grandeza similar à de augusto no Império Romano. As hostilidades entre estas potências iniciaram-se em 92 a.C. (portanto, bastante tempo antes do que se estabelece como início do cristianismo) e, embora a guerra entre os romanos e partas/sassânidas tenha durado sete séculos, as fronteiras entre eles costumava permanecer, aproximadamente, estável.

Ao longo de séculos foi como um jogo de cabo de guerra se seguiu: de ambos os ladfos, cidades, fortificações e províncias foram continuamente saqueadas, capturadas, destruídas e trocadas em acordos.

Nenhum dos lados tinha força logística, ou mão de obra, para manter longas campanhas longe de suas fronteiras e, portando, nem poderiam avançar muito longe sem arriscar esticá-las muito tenuemente. Ambos os lados fizeram conquistas além da fronteira, mas com o tempo o equilíbrio quase sempre terminava restaurado. 

Somente após muitos e muitos eventos políticos e militares, ao longo daqueles séculos, e de ter vindo a última e mais devastadora daquela série de guerras travadas entre o Império Bizantino e o Império Sassânida, que  incluiu o cerco de Constantinopla, em 626, foi que acabou havendo as invasões árabes muçulmanas, a partir de 632, que atingiu tanto o império Sassânida, quanto o de Bizantino, com efeito devastador logo após o fim do último conflito entre eles.

Mais uma vez, diante disso, dá para desconfiar, ainda mais seriamente, que a origem do conflito todo entre o ocidente e o oriente (e não entre "cristãos" e "muçulmanos") tenha sido uma consequência da inconsequência do próprio Império Romano, e do seu arqui inimigo, o Império Persa e seus remanescentes Impérios Iranianos. Portanto, que temos nós, cristãos verdadeiros, com tudo isso?

Para completar, ainda mais antiga é a história das chamadas Guerras Púnicas, entre as cidades de Roma, que  no meio do século 3 a.C. já era uma força militar que dominava toda a península Itálica, e de Cartago, originariamente uma colônia fenícia no norte da África, desde meados do século 9 a.C., que se tornou uma potência na Antiguidade, disputando com Roma o controle do mar Mediterrâneo. 

No século 9 a.C., a partir de Cartago, os fenícios fundaram entrepostos de comércio, também, no oeste da ilha da Sicília, a maior das ilhas do mar Mediterrâneo, separada da Calábria, na península Itálica, pelo estreito de Messina, que possui apenas três quilômetros de largura.

Mais tarde, no século 8 a.C., os gregos, por sua vez, colonizaram as costas leste e sul desta mesma ilha, região que se tornou conhecida como Magna Grécia, fundando prósperas colônias de comércio. Siracusa, por exemplo, foi fundada por Corinto por volta do ano 734 a.C., e se tornou a principal cidade da ilha sobre a qual a Grécia exerceu sua hegemonia. 

Devido à sua posição geográfica, a Sicília teve um papel de importância nos eventos históricos que tiveram como protagonistas os povos do Mediterrâneo da antiguidade, e entre os séculos 6 e 3 a.C. houveram frequentes hostilidades entre a Grécia e Cartago, envolvendo a Sicília e o controle da navegação comercial. Com o enfraquecimento do Império grego, a disputa em torno da Sicília passou a ser com Roma e, dessa disputa originaram-se as três Guerras Púnicas, ao final das quais Cartago estava destruída.

Área das operações da Primeira Guerra Púnica entre o Império Cartaginês e a República Romana
Em especial a Segunda Guerra Púnica foi resultado tanto do revanchismo cartaginense contra os pesados tributos impostos a eles pelos romanos pela ocasião da derrota de Cartago na Primeira Guerra Púnica, quanto contra os esforços de Roma para tomar suas novas colônias na península Ibérica, além de, simplesmente, por puro ódio a Roma, a qual, por sua vez, expressava desprezo aos cartagineses ao empregar o termo punica fides (dai derivando o termo guerra púnica), que significa, literalmente "Fé púnica", uma locução pejorativa que usavam para indicar a falta à palavra empenhada, um defeito de que acusavam os cartagineses que se recusaram a continuar pagando tributos.

Surge um grande general chamado Aníbal, com ódio a Roma criado e desenvolvido desde criança por seu pai. Aníbal acreditou ser capaz de derrotar o grande império com um exército de elefantes partindo do sul da península Ibérica, passando pelos Pirineus até atingir a península Itálica, pelo norte, algo que os romanos achavam impossível de ser realizado.

Considerando o caráter extremante difícil e arriscado da missão de Aníbal, ele foi relativamente bem sucedido ao atacar a Itália, causando enormes estragos e quase fazendo Roma capitular. Mas os romanos souberam contra-atacar, criando um cerco a Aníbal para acabar com suas provisões, ao mesmo tempo que fizeram um ataque direto a Cartago enquanto eram atacados pela mesma. Aníbal foi obrigado a recuar e voltar para defender seu país. Apesar dos esforços de Aníbal, Cartago teve de pedir a paz aos romanos, comandados por Cipião, o Africano, ao fim da segunda guerra púnica.

Ao fim da primeira guerra púnica, Roma conquistou a Sicília e a converteu em seu principal território colonial produtor de trigo. Augusto instalou as colônias de Palermo, de Catânia, e absorveu os gregos de Siracusa. Todavia, Roma não logrou êxito em controlar toda a população previamente existe e, o banditismo rebelde e a pirataria aceleraram o declínio da ilha, que chegou a ser uma das províncias mais ricas de Roma no tempo da República.

Assim, vemos que os conflitos entre a Europa e o Oriente Médio se desenrolam desde os remotos tempos das civilizações cartaginense (derivada do resultado da mistura da cultura dos berberes nativos do norte de África com os colonos fenícios) e grega (considerada berço da civilização ocidental e que proveu a sua própria cultura como herança para a civilização de Roma), numa época em que não havia o cristianismo e, muito menos, o islamismo.

Mesmo um primeiro anúncio da futura vinda do Messias (o Senhor Jesus Cristo), foi introduzido pelo profeta Isaías somente após o ano de 740 a.C., numa época em que as rotas comerciais fenícias já estavam estabelecidas, e decorrido um tempo de mais de 300 anos para elas se estabilizarem, e a época em que os gregos e cartagineses já começavam a competir no Mediterrâneo. A importância de se ter esse conhecimento é que ele prove uma capacidade de julgamento que isenta a origem dos conflitos de qualquer motivação conotação religiosa (tal como, hoje, parece evidente que seja assim), mas, sim, que os conflitos Europa versus Oriente Médio tiveram, tão somente, motivações comerciais e econômicas, as quais foram suportadas pelos poderes imperiais suscitados em ambas os lados.

Rotas comerciais fenícias (por volta de 1100 a.C.)
Durante um considerável tempo da minha vida eu vi aqueles que buscam estudar as escrituras bíblicas com a finalidade exclusiva de procurar em meio às muitas profecias que ali se encontram descritas, alguma que, aparentemente, não se tenha cumprido, a fim usar isso como argumentação para intentar denegrir e desacreditar a Bíblia.

Uma das profecias bíblicas que foi, até bem pouco tempo, muito empregada para isso, é a que se encontra descrita no capítulo 17 do livro de Isaías. Os que fazem tais achaques são os mesmos que, pretendendo destruir o conceito de Deus e de Messias salvador, atacam todas as religiões que existem em meio aos povos da Terra, acusando-as de serem causadoras de guerras, quando, o que causa guerras, de fato, são a ganância, a cobiça e a vaidade humana.

Vasculhando na Internet você irá encontrar várias postagens feitas entre os anos 2001 e 2010, que questionavam, exatamente, por que nunca havia se cumprido a profecia que diz: "Eis que Damasco será tirada, e já não será cidade, antes será um montão de ruínas." (Isaías 17:1). Todavia, depois que um grande conflito interno aflorou na Síria, começando como uma série de grandes protestos populares em 26 de janeiro de 2011 e progredindo para uma violenta revolta armada a partir de 15 de março de 2011, influenciados por outros protestos simultâneos no mundo árabe, os quais os países ocidentais denominaram, ironicamente, de "Primavera Árabe", os ateus logo deixaram de questionar tal profecia.

Hoje, infelizmente, a Síria vivencia uma imensa catástrofe humanitária mundial: Dos seus 17 milhões de habitantes, mais de 250 mil foram mortos, enquanto 4 milhões se refugiaram em outros países e 7 milhões e 600 mil pessoas se deslocaram internamente, buscando sobreviver em meio ao caos criado por uma sangrenta guerra civil iniciada em 2011. Dos cerca de 13 milhões de sírios que ainda habitam o país, segundo a ONU, 9,8 milhões vivem com insegurança alimentar, com 6,8 milhões dos habitantes em situação grave. É um número muito alto, onde a economia esfacelada faz rarear o emprego e a renda, acarretando a fome e proliferando as doenças.

Além do mais, a guerra síria reúne um emaranhado de grupos e de interesses bastante complexos, não apenas todos os seus próprios e internos mas, também, alguns provenientes de seus países vizinhos e, como se não bastasse, outros provenientes de potências bélicas bem distantes, como EUA, Rússia França e Inglaterra. Não bastassem a guerra, as constantes violações praticadas por todos os lados do conflito, como o uso de armas químicas contra população civil, as execuções de civis, os estupros, as escravizações, as perseguições e as torturas, juntamente com a ruína econômica e a falta de comida e dela decorrente impõem a fuga massiva de pessoas rumo à sobrevivência.

Os damascenos, assim como os parisienses, por exemplo, sempre desejaram ter e manter a simples alegria de viver, mas a guerra atingiu o país. O Brasil tem sorte de não ter guerra, embora tenha mais homicídios em todas as suas capitais do que na Damasco atual em guerra. Todavia, ter guerra, propriamente dita, é diferente. Viver em qualquer local atingido por uma guerra, com loucos grupos extremistas por baixo, e tolos bombardeadores genocidas por cima, é algo muito sofrível e tormentoso para as pessoas comuns. Refugiar-se também pode acabar sendo tal e qual, pois há uma vida a ser refeita, e isso é algo muito difícil em meio a um mundo de humanidade decadente.

Aos tolos que se acreditam como sendo cristãos e, ao mesmo tempo, se regozija com a desgraça que se abate sobre a Síria, eu alerto para o que diz a Palavra Inspirada de Deus: "Não se alegre quando o seu inimigo cair, nem exulte o seu coração quando ele tropeçar, para que o Senhor não veja isso, e se desagrade, e desvie dele a sua ira." (Provérbios 24:17,18), além de questionar o por quê de se considerar inimigo alguém que, além de ser seu semelhante, vive numa terra tão distante e nunca lhe fez mal algum.

Há cordeiros em peles de lobos em meio a todas as congregações de cristãos do ocidente que não fazem outra coisa, o tempo todo, a não ser buscar incitá-los ao ódio histórico irrazoável. Se o homem de coração bélico não é usado para ser vaso de ira, então o seu destino se torna ainda pior, pois, ele se prestará a mais nada a não ser, somente, um vetor para a ganância, a cobiça e a vaidade humana que causam e conduzem as guerras.

Não obstante, o fato é que não amar a paz exclui qualquer um de ser um verdadeiro cristão e, deixar-se mover por sentimentos belicistas, apenas pode dar ao homem alguma chance dele se tornar em um vaso de ira, no qual há, inerentemente, uma má tendência natural, Deus pode até acabar usando isso para levar castigo aonde o castigo seja algo requerido. Mas é só, pois, um vaso de ira não tem outra utilidade para Deus, a não ser a de atuar, momentaneamente, como vetor de ira. Ele dificilmente será salvo, mas, antes, por ser alguém de más tendências naturais, é quase certo que acabará, por fim, se perdendo, tal como aconteceu com o personagem bíblico Jeú, um oficial de alta patente do exército de Israel, a quem o profeta Eliseu enviou um dos filhos dos profetas para ungir como novo rei, e ordenar-lhe que matasse todos os homens da casa do falecido rei Acabe, como vingança pelo sangue dos profetas e de todos os servos de Jeová que haviam sido mortos nas mãos de Jezabel (ver 2 Reis 9).

"... se aquele que é mau abandonar todos os pecados que cometeu, guardar todos os meus decretos e fizer o que é justo e certo, ele com certeza continuará vivo. Não morrerá.  Ele não terá de responder por nenhuma das transgressões que cometeu. Ele continuará vivo por fazer o que é justo. Por acaso eu tenho algum prazer na morte de uma pessoa má?, diz o Soberano Senhor Jeová. Não, eu prefiro que ele abandone os seus caminhos e continue vivo? Por outro lado, se um justo abandonar a sua justiça e fizer o que é errado, fazendo todas as coisas detestáveis que os maus fazem, será que vai continuar vivo? Nenhum dos seus atos justos será lembrado. Por causa da sua infidelidade e do seu pecado, ele morrerá. Mas vocês dirão: “O caminho de Jeová é injusto."" (Ezequiel 18:21-25)

"Damasco será tirada, e já não será cidade, antes será um montão de ruínas." (Isaías 17:1)
Mesmo tendo passado dois mil anos, porque elas, em geral, contrariam o ego humano, ainda não é fácil aos homens compreenderem muitas das admoestações do Senhor Jesus:

"Ai de você, Corazim! Ai de você, Betsaida! Porque se os milagres que foram realizados entre vocês tivessem sido realizados em Tiro e Sidom, há muito tempo elas se teriam arrependido, vestindo roupas de saco e cobrindo-se de cinzas. Mas eu lhes afirmo que no dia do juízo haverá menor rigor para Tiro e Sidom do que para vocês. E você, Cafarnaum: será elevada até o céu? Não, você descerá até ao Hades! Se os milagres que em você foram realizados tivessem sido realizados em Sodoma, ela teria permanecido até hoje. Mas eu lhes afirmo que no dia do juízo haverá menor rigor para Sodoma do que para você". (Mateus 11:21-24)

Por isso fiquem, não apenas atentos, mas parem sempre para pensar e reflitam sobre tudo. “Não se deixem enganar: de Deus não se zomba. Pois o que o homem semear, isso também colherá.” (Gálatas 6:7). A ambição do ser humano costuma não ter limites e, convém que um homem se esforce e se supere, contrariando a si mesmo, a fim de por em si próprio algum devido freio contra as suas inerentes más tendencias de ambição, de cobiça e de vaidade, para que não se chegue a um ponto em que o Senhor Deus permita que outros homens venham de fora e ponham freios nele.

Tolo é aquele que, enganando a si mesmo, despreza a Palavra de Deus: “Porque não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais.” (Efésios 6:12). Por a caso não foi o próprio Senhor Jeová quem disse: “Não por força nem por violência, mas sim pelo meu Espírito ...” (Zacarias 4:6), e o ensino superior do Senhor Jesus não é: “Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus;” (Mateus 5:44)?

“O propósito é que não sejamos mais como crianças, levados de um lado para outro pelas ondas, nem jogados para cá e para lá por todo vento de doutrina e pela astúcia e esperteza de homens que induzem ao erro. Antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo.” (Efésios 4:14,15)







quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Betabara – Local do Batismo e Berço do Cristianismo


Apesar de o Apóstolo André (em grego: Ἀνδρέας (Andréas)) ser chamado na tradição ortodoxa por Prōtoklētos (Πρωτόκλητος), ou seja, o “Primeiro Chamado”, esse cristão, irmão de Simão (Pedro), sequer foi “chamado por Jesus" (tal como, também, aconteceu com João). Essa é uma das teses que eu defendo aqui, além de estabelecer uma correta ordem cronológica e de lugares, em que os fatos sobre os primeiros doze chamados (ou aceitos) ocorreram.

Tal qual João (o evangelista, que também não se pode dizer que foi um "chamado por Jesus"), com quem André frequentemente andava, primeiro por causa da condição de sociedade das famílias de ambos no negócio da pesca no povoado de Betsaida e, posteriormente, porque eles dois, juntos, deixaram temporariamente tal negócio, de livre e espontânea vontade, para se tornarem, por um curto tempo, discípulos de João Batista.

Assim, muito embora eles de fato tenham sido os dois primeiros discípulos a serem conhecidos por Jesus, nem André e nem João foram "chamados por Jesus".

André, junto com João, simplesmente passaram a seguir a Jesus, de modo deliberado, quando, estando eles junto com João Batista, o qual “vendo passar a Jesus, disse: Eis aqui o Cordeiro de Deus.” (João 1:36). Deste modo, estes dois Apóstolos, João e André, apesar de não terrem sido escolhidos por Jesus, foram, ambos, bem-aceitos por ele.

Quando André e João já estavam seguindo jesus (possivelmente até mesmo sorrateiramente), quando ele se voltou e lhes disse: Vinde, e vede. Foram, e viram onde morava, e ficaram com ele aquele dia; (João 1:39).

Tudo isso ocorreu em Betabara (ou, nas cercanias de Batabara, ou Bethabara) a dita Betânia além do Jordão, ou ainda "casa do vau", ou "local de travessia"), o local do batismo nas águas do Rio Jordão, não apenas do próprio Senhor Jesus, mas, também, de milhares de outros que ouviram e aceitaram a pregação de João Batista, e dentre os quais saíram muitos dos que se tornaram em os primeiros cristãos.

Quanto ao fato de André e João sequer terem sido pessoalmente escolhidos como discípulos, mais tarde, o Senhor Jesus explicaria tal procedimento de eleição, que seria registrado pelo próprio João: “Todo o que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora. ... Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não trouxer;” (João 6:37,44). Mas não há dúvidas de que eles foram, de fato, dentre os discípulos, os primeiros a conhecerem Jesus, e que eles foram confirmados, posteriormente, quando da escolha formal dos 12 Apóstolos.

Um fato interessante de se registrar aqui, é que nós, cristãos, sabemos que imediatamente após Jesus ser batizado por João Batista, ocorreu que “Então Jesus foi levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo. (Mateus 4:1). Também sabemos que, nessa ocasião, o tentador só se aproximou de Jesus “Depois de (Jesus) jejuar quarenta dias e quarenta noites, (quando Jesus) teve fome.” (Mateus 4:2).

Ora, sabemos que no dia em que André e João seguiram Jesus, tornando-se, assim, os dois primeiros futuros Apóstolos, Jesus já havia sido batizado por João Batista, pois, no dia anterior, ele mesmo (João Batista) testificava: “Eu vi o Espírito descer do céu como pomba, e repousar sobre ele.” (João 1:32), enquanto o próprio Jesus passava por ali, por onde estava o João Batista, e muitos de seus seguidores e gente do povo, naquele exato momento. Mas André e João, não o seguiram naquele mesmo dia, só o fazendo no dia seguinte.

Ora, é sabido, também, que a palavra de Deus não pode mentir, então, quando se está falando da vida de um homem, como, obviamente, era o caso de João Batista, onde estiver escrito “no dia seguinte”, isto, de fato, tem que significar “um dia posterior àquele imediatamente anterior”. Também é sabido que, João Batista, desprovido de recursos materiais ou econômicos como era, deveria andar somente a pé, o que restringiria a sua mobilidade diária, quando muito, para no máximo umas poucas dezenas de quilômetros.

Também não havia motivo algum para João Batista se afastar de Betabara no seu dia a dia, pois ali havia as condições ideais para a realização de um dos propósitos que Deus havia colocado para a vida dele, que era o de batizar as pessoas nas águas. O outro propósito era o de simplesmente explicar que aquele batismo que ele operava era para o perdão dos pecados, para a conversão a Deus, e para a chegada do Messias, que já vinha trazendo o Espírito Santo.

Assim, desde a chegada de João Batista ali, a localidade de Betabara havia sofrido uma transformação funcional: de simples lugar costumeiro de travessia do Rio Jordão, ela passou a ser um local de grande afluência e de concentração de pessoas, algumas possivelmente apenas curiosas, outras dispostas a ouvir atentamente a João Batista, dentre as quais muitas acabavam por se arrepender, e aceitando o batismo.

A narrativa de João, capítulo 1, o termo “dia seguinte”, aparece três vezes, sendo que, na primeira dessas ocorrências, tal termo é usado para separar o dia em que Jesus passou ao largo pelo local onde operava João Batista, que então aproveitou a ocasião para testificar sobre ele para muitas pessoas que estavam ao seu redor.

Neste dia, Jesus não parou ali, ele apenas passou, e, passando, nem foi seguido por André e João, e não há sequer evidencia alguma de que André e / ou João estivessem também, ali, em meio a multidão de Betabara, naquele dia, que foi antecedido pelo dia em que ocorreu o evento de “o testemunho de João, quando os judeus mandaram de Jerusalém sacerdotes e levitas para que lhe perguntassem: Quem és tu?” (João 1:19).

Sobre este evento em que “os que tinham sido enviados eram dos fariseus. E perguntaram-lhe, e disseram-lhe: Por que batizas, pois, se tu não és o Cristo, nem Elias, nem o profeta?” (João 1:24-25), como também sobre o evento da passagem ao largo de Jesus por ali no dia seguinte e, ainda, do próximo dia, em que João e André, enfim, seguiram e estiveram com Jesus, nós sabemos, com toda certeza, duas coisas:
  • A primeira é que todos estes tais eventos ocorreram depois do retorno de Jesus dos seus quarenta dias de provação no deserto;
  • A segunda é quanto ao local em que eles ocorreram: “Estas coisas aconteceram em (ou nas proximidades de) Betabara, do outro lado do Jordão, onde João estava batizando.” (João 1:28), e não nos confins de Zebulom e Naftali, "numa casa de praia enorme em Cafarnaum, com acomodações para mais de 20 pessoas", como, erroneamente, acreditam alguns, por causa de pregações falsas.
A localidade de Betabara não está mais distante do que uns 8,5 km do centro da atual (e também da antiga)
cidade de Jericó (a cidade em mais baixa altitude da Terra), porém, Betabara dista a mais de 30 km
da cidade de Jerusalém.
Isso revela, também, que João Batista, não foi preso enquanto Jesus estava passando pela provação dos quarenta dias no deserto, como alguns erroneamente creem mas, sim, que depois de terminado o período daqueles quarenta dias, e passada a provação maior que veio ao final deles, “Então o diabo o deixou, e anjos vieram e o serviram” (Mateus 4:11), e, ainda deu tempo de que Jesus, com as forças recuperadas e multiplicadas, retornasse para o local onde João Batista ainda prosseguia batizando, e onde ele acabaria por encontrar com seus dois primeiros futuros Apóstolos.

Mapa assinalando (em vermelho) ambas as localizações (de Betabara e de Betsaida,
distantes. entre si, em cerca de 120 km uma da outra). O povoado de Betsaida
aparece com uma "?" ao lado, pois, de fato, por conta de algum tipo de
cataclismo, ele desapareceu do mapa (e da história) e seu sítio arqueológico
exato é procurado (e questionado) até hoje.
Também, parece claro, que este lugar deve ser a mesma localidade de Betabara (Betabara não era uma cidade, e possivelmente sequer um vilarejo havia por ali, enquanto que, para quem não pudesse acampar em barracas, as acomodações mais prováveis, poderiam se encontrar apenas em cavernas das imediações). João Batista não se mantinha deslocando de uma localidade  para outra. Em vez disso ele mantinha-se diligentemente ocupado, batizando centenas de pessoas a cada dia. Também, por  manter-se fixo no local que era o mais propício, ele era mais fácil de ser achado, tanto pela multidão dos que buscavam pelo batismo que ele operava, como também o foi para aqueles emissários dos fariseus de Jerusalém, que ora o haviam interrogado, como, ainda, por Jesus, que acabara de retornar da sua provação quarenta dias no deserto. Além do mais, por manter-se ali, na margem oposta do Rio Jordão, e cercado, diariamente, por um grande número de pessoas, isso provia ao Batista uma maior segurança, caso alguma autoridade viesse com guardas, e procurasse lançar mãos dele, e prendê-lo.

A situação da vida de João Batista era a de comprometimento com o plano do Reino de Deus, porém, naquele ponto, com relação a sociedade e a autoridade judaica, a situação da vida dele já era toda complicada:

"E a multidão o interrogava, dizendo: Que faremos, pois? E, respondendo ele, disse-lhes: Quem tiver duas túnicas, reparta com o que não tem, e quem tiver alimentos, faça da mesma maneira. E chegaram também uns publicanos, para serem batizados, e disseram-lhe: Mestre, que devemos fazer? E ele lhes disse: Não peçais mais do que o que vos está ordenado. E uns soldados o interrogaram também, dizendo: E nós que faremos? E ele lhes disse: A ninguém trateis mal nem defraudeis, e contentai-vos com o vosso soldo. E, estando o povo em expectação, e pensando todos de João, em seus corações, se porventura seria o Cristo, respondeu João a todos, dizendo: Eu, na verdade, batizo-vos com água, mas eis que vem aquele que é mais poderoso do que eu, do qual não sou digno de desatar a correia das alparcas; esse vos batizará com o Espírito Santo e com fogo." (Lucas 3:10-16)
E a multidão o interrogava, dizendo: Que faremos, pois?
E, respondendo ele, disse-lhes: Quem tiver duas túnicas, reparta com o que não tem, e quem tiver alimentos, faça da mesma maneira.
E chegaram também uns publicanos, para serem batizados, e disseram-lhe: Mestre, que devemos fazer?
E ele lhes disse: Não peçais mais do que o que vos está ordenado.
E uns soldados o interrogaram também, dizendo: E nós que faremos? E ele lhes disse: A ninguém trateis mal nem defraudeis, e contentai-vos com o vosso soldo.
¶ E, estando o povo em expectação, e pensando todos de João, em seus corações, se porventura seria o Cristo,
Respondeu João a todos, dizendo: Eu, na verdade, batizo-vos com água, mas eis que vem aquele que é mais poderoso do que eu, do qual não sou digno de desatar a correia das alparcas; esse vos batizará com o Espírito Santo e com fogo.

Lucas 3:10-16

Outra coisa que parece bastante clara é que, André e João vieram desde Betsaida, na região do Mar da Galileia, onde eles trabalhavam como pescadores, para esta longínqua localidade de Betabara, desde o extremo sul do Mar da Galileia, a pé, uma vez que. apesar deste lago ser todo navegável, já o Rio Jordão, para descer ao sul, não o era navegável (e não o é até os dias de hoje: profundo e turbulento durante a estação chuvosa, o Jordão se reduz a um fluxo lento e superficial durante o verão), em nenhuma época do ano, portanto demandando vários dias de caminhada (ao menos uns 6 dias, eu suponho, para apenas para homens jovens e fortes), com objetivo específico de encontrarem com João Batista, e, em especial, de serem batizados por ele.

Todavia, foi apenas a partir do momento em chegaram ali, em Betabara, e serem batizados por João Batista, que André e João começaram a ouvir falar sobre Jesus, por testemunho do próprio João Batista. Muito provavelmente, João e André partiram de Betsaida (ou de Cafarnaum), e chegaram a Betabara, apenas com o objetivo específico de conhecerem, de ouvirem pessoalmente a pregação, e de serem batizados por João Batista, em um momento qualquer em que o Senhor Jesus já cumpria os seus quarenta dias de provação no deserto.

Mas, afinal, onde fica esta tal localidade de “Betabara, do outro lado do Jordão, onde João estava batizando.” (João 1:28), e que, também, é o mesmo local em que o próprio Jesus (além de de André e João) foi batizado?

Betabara, pronunciado beth-ab-bra, que é atestada tanto no Mapa de Madaba do século 6 dC, quanto no Talmude, como o nome do local tradicional onde João Batista batizava e, também, local do Batismo de Jesus Cristo, tem o mesmo significado que Betânia (do hebraico, que significa "Casa de Passagem") e fica na atual Jordânia, às margens do Jordão, defronte de Jericó, e ela se distingue da outra localidade denominada Betânia, que é onde vivia Lázaro e suas irmãs (uma cidadezinha que é bem mais próxima a Jerusalém), como sendo de "além do Jordão."

O afluxo de pessoas com interesse naquele local se manteve por longo tempo e, muito provavelmente, o Local do Batismo já havia se tornado uma estação de peregrinação, mesmo antes da morte do Senhor Jesus, por causa da fama popular da obra de batismo de João Batista, e desde aqueles dias em que ele, ali, diariamente batizava multidões.

Muito provavelmente, também, nem todos aqueles que se batizaram com o Batista se tornaram, posteriormente, cristãos. Deduzir isso é muito simples, pois, as pessoas que viviam naquele tempo não eram muito diferentes das pessoas que vivem hoje: sabedores de haver pronunciação de profecias em algum local, muitas pessoas acorriam, para ver se haveria bençãos a serem recebidas, mas nem todas se dispunham, a manter, posteriormente, uma vida de santidade.

Muito mais provavelmente, ainda, depois que João Batista morreu, muitos de seus discípulos mais leais ainda permaneceram naquela área, e também, com toda certeza, podemos dizer que aquele local foi, de fato, o berço do cristianismo, pois foi ali que Jesus encontrou João e André, e apenas a estes dois ele tomaria consigo dos que se ajuntavam a João Batista, diretamente dali daquele local.

Com o transcorrer dos anos, posteriormente a morte e ressurreição do Senhor Jesus, cristãoretornaram ali para visitar o local Igrejas foram construídas próximas daquele local, enquanto monges viveram em cavernas das imediações (a imitação do Batista e do próprio Jesus), e muitos peregrinos visitaram o local, continuamente, até próximo do século 14, quando, então, ir a leste do Rio Jordão passou a não ser mais uma jornada segura e, sem nenhuma garantia de segurança, a peregrinação para o local tornou-se cada vez menos frequente, e depois praticamente parou.

Um estudioso de Jerusalém descobriu o mapa de Madaba, em Madaba atual Jordânia, em 1897. Este mapa é um mosaico século 6 representando um mapa do Oriente Médio da época. A descoberta e posterior análise do mapa levou a um interesse renovado sobre a localização exata do Local do Batismo. Peregrinos começaram a retornar para a área a leste do rio Jordão, na esperança de encontrar pistas sobre a localização do site.

No final do século XX, durante uma viagem ao Monte Nebo (aquele de onde Moisés pode contemplar, apenas de longe, a terra prometida), o príncipe jordaniano Ghazi bin Muhammad conheceu o arqueólogo e monge Piccirillo, que explicou ao príncipe Ghazi sobre o significado do local do Batismo, bem como a possibilidade de se buscar encontrá-lo, uma vez que Israel e Jordânia já haviam assinado um tratado de paz recentemente.

Por fazer parte da zona anteriormente militarizada, o príncipe Ghazi arranjou com os militares uma visita junto com Piccirillo ao local e, em sua visita, eles encontraram padrões de mosaico e ruínas de uma igreja. Foi o suficiente para o príncipe Ghazi pedir uma investigação mais aprofundada.

E quando os que levavam a arca, chegaram ao Jordão, e os seus pés
se molharam na beira das águas (porque o Jordão transbordava sobre
todas as suas ribanceiras, todos os dias da ceifa), (Josué 3:15)
Logo depois, foi dado acesso ao local a uma equipe de arqueólogos, e um levantamento de informações obtidas a partir das tribos beduínas locais. Com isso, muitos vestígios arqueológicos mais começaram a ser descobertos: Cerâmicas, mosaicos, cavernas, e mármores. A maioria destes eram sobre uma pequena colina conhecida pelos moradores como "Colina de Elias”.

Quanto mais escavações eram realizada ali, mais foram sendo encontrados os restos mortais de três grandes piscinas do período romano. Um sistema de água vasto foi encontrado, e em seguida, os restos de um grande mosteiro, que foi identificado como o mosteiro do século 5, construído por um monge chamado Rhotorius.

Pararam-se as águas, que vinham de cima; levantaram-se num montão, mui longe da cidade de Adão,
que está ao lado de Zaretã; e as que desciam ao mar das campinas, que é o Mar Salgado,
foram de todo separadas; então passou o povo em frente de Jericó. (Josué 3:16)
Outra coisa muito interessante de se observar, com respeito a localidade de Betabara, é que ela é, também, conforme se pode constatar pela legenda das figuras acima, o local aproximado em que ocorreu de o povo israelita passar a travessia do Rio Jordão, quando entrou, ao comando de Josué, na terra prometida.

Ali nas proximidades de Betabara (e não longe dali), Jesus permaneceu desde o fim dos quarenta dias de sua provação no deserto, até João Batista ser preso, a mando de Herodes. Depois de despedir João e André, para que estes pudessem retornar para a sua origem, a vila pesqueira de Betsaida (casa da pesca, em hebraico), uma povoação a nordeste do Mar da Galileia, situada a cercas de uns cinco quilômetros da cidade de Cafarnaum, o próprio Jesus permaneceu ali nas cercanias de Betabara, por mais algum tempo ainda, enquanto durou o ministério de João Batista.

Mesmo que na ocasião Jesus já estivesse batizado e, portanto, já revelado a si mesmo, soubesse algo a respeito do curto tempo que restava para que João Batista fosse preso, a dupla André e João, apesar de, por causa da evidente opressão reinante poderem até mesmo imaginar isso, decerto eles não o poderiam saber ao certo. 

Apesar de curiosos em conhecer o Messias, e do grande prazer que sentiram por poderem passar um dia na companhia de Jesus (o que deve ter ocorrido, provavelmente, em alguma caverna, e não em uma casa, como se imagina), eles tinham, também, plena consciência das suas obrigações familiares, como homens israelitas, que eles haviam deixado para trás, e como suas famílias dependiam, também, do trabalho deles, eles sabiam que precisavam retornar a Betsaida.

O livro de Marcos nos narra claramente: “Depois que João foi preso, Jesus foi para a Galileia, proclamando as boas novas de Deus. "O tempo é chegado", dizia ele. "O Reino de Deus está próximo. Arrependam-se e creiam nas boas novas!” (Marcos 1:14-15). Ao retornar a Galileia, Jesus passou por Nazaré, aonde provavelmente pôde rever sua mãe, Maria. Entretanto ele não permaneceu ali. O livro de Mateus nos dá uma a confirmação disso, explicando nos, ainda, mais alguns ricos detalhes sobre o fato:

Quando Jesus ouviu que João tinha sido preso, voltou para a Galileia. Saindo de Nazaré (local de onde Jesus havia partido antes de ser batizado por João Batista), foi viver em Cafarnaum, que ficava junto ao mar (da Galileia), na região de Zebulom e Naftali, para cumprir o que fora dito pelo profeta Isaías: "Terra de Zebulom e terra de Naftali, caminho do mar, além do Jordão, Galileia dos gentios; o povo que vivia nas trevas viu uma grande luz; sobre os que viviam na terra da sombra da morte raiou uma luz". Daí em diante Jesus começou a pregar: "Arrependam-se, pois o Reino dos céus está próximo".” (Mateus 4:12-17).

Muito provavelmente, a escolha de ir para Cafarnaum não foi porque Jesus teve alguma preocupação especial de fazer cumprir aquela profecia sobre si mesmo, mas porque ele sabia que próximo dali ele poderia reencontrar e rever aqueles seus dois novos amigos: André e João. Ao que tudo indica, aquele único dia em que eles passaram juntos próximo a Betabara, havia sido suficiente para confirmar e selar uma promessa de reencontro, mesmo que ela não tivesse sido explicitamente declarada entre eles, mas que, agora, ocorreria naturalmente, "andando à beira do mar da Galileia" (Mateus 4:18).

Deste modo, naquilo que se encontra narrado no livro de João, mais especificamente entre os versos 39, que encerra uma descrição de um novo evento, que começa no verso 40, ou seja, do dia em que André e João passaram com Jesus, quando eles três ainda estavam em Betabara, até o dia em que, todos havendo retornado ao norte, eles se reencontraram em Betsaida, André “achou primeiro a seu irmão Simão, e disse-lhe: Achamos o Messias (que, traduzido, é o Cristo).” (João 1:41), é evidente que transcorreu um certo tempo, um tempo nada curto, de vários dias (ou mesmo de semanas, sem que seja possível determinar ao certo).

Nesta ocasião do reencontro, André tomou Pedro “E levou-o a Jesus. E, olhando Jesus para ele, disse: Tu és Simão, filho de Jonas; tu serás chamado Cefas (que quer dizer Pedro). (João 1:42). No entanto, esse primeiro encontro, arranjado, entre Jesus e Pedro, ainda não seria em praticamente nada o suficiente para convencer Pedro da veracidade de que Jesus fosse o Messias, e muito menos de que ele devesse seguir Jesus. Desde modo, nada mudou e, tanto João, tal qual André, apesar de crerem em Jesus, também continuaram a trabalhar na pesca, com os seus irmãos, e vivendo em Betsaida, pois, eles todos, juntos com Zebedeu, formavam uma mesma única empresa de pesca, da qual, evidentemente, dependia a manutenção de recursos para as suas.

Também não há nenhuma evidência positiva de que algum dos demais que viriam a se tornar no grupo dos doze Apóstolos, além de João e André, teriam estado em Betabara e sido batizados por João Batista, de modo que, João e André teriam sido, sim, os primeiros que creram em Jesus como Messias, além do próprio João Batista. Por seu turno, imediatamente após este reencontro, Jesus ainda não pedia nem a João, e nem a André, que passassem a segui-lo. 

Apesar de João e André ainda não terem presenciado nenhum sinal em especial (algum milagre) da parte de Jesus, eles tinham a palavra de João Batista, e tudo leva a crer que foi por isso que eles creram, de modo suficiente para que eles já dessem testemunho entre os seus parentes e amigos, de terem encontrado em Jesus o Messias.

Assim, “No dia seguinte (após ter mudado o nome de Simão para Pedro) quis Jesus ir à Galileia (o que, provavelmente, em condições normais, custou lhe uma travessia de barco), e achou a Filipe, e disse-lhe: Segue-me. E Filipe era de Betsaida, cidade de André e de Pedro.” (João 1:43-44).

Como Filipe era, também, proveniente de Betsaida, um povoado deveras pequeno, provavelmente ele também estivesse envolvido com o negócio da pesca (atividade em torno da qual girava quase tudo naquela localidade). Muito provavelmente, também, Felipe já conhecia, de antemão, André e João, por meio dos quais ele já ouvira, antes daquele encontro dele com Jesus, ao menos algum comentário deles sobre Jesus.

Todavia, ao que parece, Filipe não obedeceu ao pedido do Senhor Jesus de imediato (porque Jesus disse-lhe: "Segue-me", mas, antes, ele saiu e “Filipe achou Natanael, e disse-lhe: Havemos (note o verbo na primeira pessoa do plural) achado aquele de quem Moisés escreveu na lei, e os profetas: Jesus de Nazaré, filho de José. Disse-lhe Natanael: Pode vir alguma coisa boa de Nazaré? Disse-lhe Filipe: Vem, e vê. Jesus viu Natanael vir ter com ele, e disse dele: Eis aqui um verdadeiro israelita, em quem não há dolo. Disse-lhe Natanael: De onde me conheces tu? Jesus respondeu, e disse-lhe: Antes que Filipe te chamasse, te vi eu, estando tu debaixo da figueira. Natanael respondeu, e disse-lhe: Rabi, tu és o Filho de Deus; tu és o Rei de Israel.” (João 1:45-49)

Sob o verbete “Filipe, o Apóstolo” a enciclopédia Wikipédia, em língua inglesa, escreve: Ele também estava entre aqueles que rodeiam o Batista, quando este primeiro apontam para Jesus como o Cordeiro de Deus; Todavia, não se encontra nas Escritura nenhuma passagem que corrobore com tal afirmação mas, sim, com tudo indicando, que Jesus e Filipe só se encontraram, mesmo, depois que João Batista já se encontrava preso, e Jesus já tinha retornado, de Betabara para a Galileia, ido para Cafarnaum, e caminhado dali para Betsaida.

Recordando o que explica o livro de Mateus: “Quando Jesus ouviu que João tinha sido preso, voltou para a Galileia. Saindo de Nazaré, foi viver em Cafarnaum, que ficava junto ao mar, na região de Zebulom e Naftali, para cumprir o que fora dito pelo profeta Isaías: "Terra de Zebulom e terra de Naftali, caminho do mar, além do Jordão, Galileia dos gentios; (Mateus 4:12-15).

Com efeito, apesar de ficarem bem próximas uma da outra (distantes pouco mais de 5 km, uma da outra), Cafarnaum (Capernaum, no mapa acima) se encontra ainda dentro dos limites da Galileia, enquanto que, o vilarejo de Betsaida (Bethsaida), não. 

Betsaida está, não apenas para “além do Jordão”, como, também, está para além da fronteira daquilo que era, na época, a Galileia oficial, ou seja, já dentro de uma outra região que era denominada, no tempo de Jesus, como Traconites (Trachonitis), conforme anunciado em Lucas 3:1:

E no ano quinze do império de Tibério César, sendo Pôncio Pilatos presidente da Judeia, e Herodes tetrarca da Galileia, e seu irmão Filipe tetrarca da Itureia e da província de Traconites, e Lisânias tetrarca de Abilene” (Lucas 3:1).

De modo que, sair da Betsaida para ir a Galileia, podia significar tão pouco quanto andar uns poucos quilômetros a pé até Cafarnaum, como ainda, poderia significar atravessar de barco, na orientação diagonal de nordeste para sudoeste, o Mar da Galileia, indo para qualquer localidade portuária dali, como Tiberíades, por exemplo, ou mesmo para a pequena Magdala (a cidadezinha em que vivia a aquela que viria a ser conhecida como Maria Madalena).

Mas o fato é que Jesus não atravessou para ali, apenas para encontrar Filipe, e para que este encontrasse a Natanael. Havia um motivo extra para Jesus ter ido ali, do outro lado do Mar da Galileia, e quem nos conta a respeito é João:

E, ao terceiro dia (após o encontro com Filipe e Natanael), fizeram-se umas bodas em Caná da Galileia; e estava ali a mãe de Jesus. E foi também convidado Jesus e os seus discípulos para as bodas.” (João 2:1-2). Decerto, agora, por ocasião do evento conhecido como "as bodas de Caná", sim, Jesus, efetivamente, tinha discípulos, que além de receberem disciplina e instrução dele, também passavam a acompanhá-lo, continuamente, além de se tornarem, também, parte integrante dos futuros Apóstolos.

Em se tratando de futuros Apóstolos, na sequência em que cada um deles foi conduzido por Deus para serem apresentados a Jesus, Filipe e Natanael (que viria a ser chamado Bartolomeu) eram, respectivamente, o quinto e o sexto mas, como discípulos, no sentido mais estrito da palavra, que inclui o atributo de ser companheiro e acompanhante, desses que passam a acompanhar o mestre por onde ele tem que ir, e não apenas um distante seguidor dos ideais, eles foram, de fato, os dois primeiros.

Filipe e Natanael tiveram, ainda, a feliz oportunidade de presenciar, também, aquele que é considerado o primeiro milagre narrado, operado por Jesus: a transformação da água em vinho durante a festividade das bodas na cidade de Caná. Aparentemente, para Natanael, tal milagre foi algo menos impactante do que, tão simplesmente, a revelação sobre Jesus tê-lo visto debaixo de uma figueira, que foi o motivo dele ter crido, de imediato.

De certo, "estar sob a figueira" era algo que representava um momento crítico e decisivo na vida de Natanael. Após essa revelação de Jesus, Natanael faz a sua adesão ao mestre com a seguinte profissão de fé: "Rabi, tu és o filho de Deus, tu és o Rei de Israel". 

Ao contrário do que ocorreu com André e João, que mesmo depois de passar um dia inteiro com Jesus, por um tempo, ainda voltaram às suas atividades de pescadores, por sua vez, as vidas de Filipe e Natanael parecem não ter mais retornado a "normalidade" a partir daquele encontro deles com Jesus.

Alguns dias depois disso, Jesus se reencontraria, mais uma vez, com André e João e, pela segunda vez, também com os irmãos deles, Pedro e Tiago. Até este evento, mesmo que todos eles já estivessem reservados, na mente de Deus, para serem futuros Apóstolos do Senhor Jesus Cristo, nenhum deles ainda o seguia, acompanhando Jesus naquelas suas primeiras andanças e, portanto, eles ainda não eram "discípulos companheiros".

Quando estiveram em Betabara, e lá passaram um dia com Jesus, por que eles creram na palavra dada por João Batista, João e André acreditaram que Jesus fosse o Messias. Contudo, eles não tiveram desprendimento pessoal imediato para segui-lo, mas, em vez disso, lembrando-se do trabalho cotidiano que eles haviam deixado para trás (apenas temporariamente), eles retornaram de Betabara para Betsaida, para mais uma vez, voltarem a ser pescadores de peixes galileus na empresa de pesca familiar deles.

Assim, Jesus reencontra nas praias de Betsaida, André e João, que já o haviam seguido e acompanhado, espontaneamente, antes, lá em Betabara, porém, apenas por um único diaainda como trabalhadores da pesca, mas, agora, para, enfim, poder chamá-los de modo definitivo. Todavia, o chamado não viria apenas para eles dois (que já haviam sido aceitos, em antecipação, desde Betabara), mas, também, viria para Tiago (irmão de João) e, principalmente, para Simão (irmão de André, e que viria a ser chamado Pedro). Também é fato que existia, de antemão a liderança natural que ele, Pedro, já exercia sobre os demais, mas, o que de verdade se pode dizer sobre as razões da escolha de Deus?

É notório que André e Pedro tinham, entre si, temperamentos bem diferentes, mas, mesmo sob diversidade de personalidades, eles se darem muito bem. Ambos influenciavam, de maneira positiva, um ao outro, mas, a liderança em grandes decisões. parece que André deixava para Pedro, sem nunca ter dado mostra alguma de ter inveja da capacidade de liderança de seu irmão mais novo. É raro ver-se um homem mais velho do tipo de André, exercendo uma influência tão profunda sobre um irmão mais jovem e mais talentoso, em um clima de profundo respeito.

Apesar de Simão (agora já chamado Cefas, ao menos pelo Senhor Jesus) ser um melhor líder e um melhor gestor, tudo leva a crer que André fosse homem bem mais "espiritualizado" do que ele, pois, foi ele quem (junto com João) decidiu largar (ao menos temporariamente) as suas obrigações seculares que os prendiam à empresa de pesca em Betsaida, para sair dali, e enfrentar uma jornada de cerca de 120 km, até Betabara, indo atrás da tão propagada pregação e batismo de João Batista (fazendo isso, eu creio, até ao contragosto de Simão), pois André tinha um coração mais propenso a "aventura espiritual", daquela de andar atrás do tesouro mais do que especial, que só se conhece e se prova pela fé, que é o reino de Deus.

Mais tarde, o próprio Jesus explicaria sobre alguns dentre os requisitos importantes que se aplicam para o voluntariado da liderança e do apostolado cristão: "o reino dos céus é semelhante a um tesouro escondido num campo, que um homem achou e escondeu; e, pelo gozo dele, vai, vende tudo quanto tem, e compra aquele campo." (Mateus 13:44). “Ninguém, que lança mão do arado e olha para trás, é apto para o reino de Deus.” (Lucas 9:62)

Em sua narrativa evangélica, João as vezes se omite de quantificar a passagem de tempo entre um evento e outro, porém, quando ele o faz, o faz de maneira certa e precisa. Pedro poderia estar ali, do outro lado do mar da Galileia, com Jesus, Filipe, e Natanael, se pondo, também, a caminho da festiva bodas em Caná. Mas, decerto ele não estava, pois ele ainda não cria, como deveria e viria, posteriormente, a crer. Simplesmente ele não estava pronto.

Mesmo tendo recebido um nome novo, ele (Pedro) não se pôs, de imediato, a seguir Jesus. Já, André e João poderiam até estar ali, pois eles já criam e, eu creio, eles até já desejavam seguir Jesus. Mas, infelizmente André e João também não estiveram presentes às bodas da Caná, pois, fato é que, até ali, mesmo eles já o reconhecendo como o Messias (por acreditarem na palavra de João Batista), eles não haviam se tornado, ainda, companheiros permanentes de Jesus. Eles também não estavam prontos.

"Depois disto (das bodas de Caná) desceu a Cafarnaum, ele (Jesus), e sua mãe (Maria), e seus irmãos, e seus discípulos (Felipe e Natanael); e ficaram ali não muitos dias" (João 2:12). "Não muitos dias", porém, tempo o bastante para Jesus fazer algumas das suas caminhadas a beira do mar da Galileia, principalmente naquela curta distância (com duração de cerca de uns 50 minutos a pé) entre Cafarnaum e Betsaida, e agora não mais necessariamente sozinho, mas já podendo, eventualmente, ser acompanhado de Felipe e Natanael.

Andando à beira do mar da Galileia, Jesus viu dois irmãos (aos quais já conhecia): Simão, chamado Pedro, e seu irmão André. Eles estavam lançando redes ao mar, pois (ainda) eram pescadores. E disse Jesus: "Sigam-me, e eu os farei pescadores de homens". No mesmo instante eles deixaram as suas redes e o seguiram. (Mateus 4:18-20).”

Eu fico, aqui, com meus botões, imaginando a cara do André nessa hora, que, eu creio, queria poder seguir a Jesus, mas que sentia não ter o poder deixar o seu irmão e os seu trabalho na empresa de pesca. Quão alegre ele, decerto, ficou com aquilo. 

Mas os pés do Senhor Jesus não param e “Indo adiante, viu outros dois irmãos: Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão. Eles estavam num barco com seu pai, Zebedeu, preparando as suas redes. Jesus os chamou, e eles, deixando imediatamente o barco e seu pai, o seguiram. (Mateus 4:21-22)

A narrativa dos reencontros e dos chamados feitos para Pedro, André, Tiago e João para o seguir, é confirmada no livro de Marcos, capítulo 1, versos de 16 a 20, porém, Marcos (que não foi contado entre os doze Apóstolo, mas que, porém, pode ter conhecido Jesus como homem, pessoalmente, e participado, inclusive, do grupo dos setenta discípulos pregadores) prossegue dando ainda mais detalhes imediatos: 

“Eles foram para Cafarnaum e, assim que chegou o sábado, Jesus entrou na sinagoga e começou a ensinar. Todos ficavam maravilhados com o seu ensino, porque lhes ensinava como alguém que tem autoridade e não como os mestres da lei.” (Marcos 1:21-22)

Marcos prossegue narrando milagres realizados em Cafarnaum, naquele mesmo dia de sábado, como a cura de um possesso, a cura da sogra de Pedro, e a repercussão disso, no final de um mesmo dia:

“Ao anoitecer, depois do pôr do sol, o povo levou a Jesus todos os doentes e os endemoninhados. Toda a cidade se reuniu à porta da casa, e Jesus curou muitos que sofriam de várias doenças. Também expulsou muitos demônios; não permitia, porém, que estes falassem, porque sabiam quem ele era.” (Marcos 1:32-34)

Não há dúvidas de que a "porta da casa" mencionada neste verso, refere-se à porta da mesma casa aonde Jesus havia chegado havia poucas horas antes, ou seja "foram à casa de Simão e de André" (Marcos 1:29), aonde Jesus curou a sogra de Simão. É sabido que Simão (Pedro) detinha essa residência ali em Cafarnaum, que era o seu "endereço residencial", muito embora o "endereço comercial" da empresa de pesca dele e de André, em sociedade com Zebedeu e seus filhos, era mesmo em Betsaida.

Nada leva a crer que, ao se transferir para Cafarnaum, Jesus foi se abrigar na casa de Pedro. Por ocasião da chegada de Jesus àquela cidade, ainda não havia uma intimidade de relacionamento entre ele e Simão que justificasse supor isso. O relacionamento entre Jesus e Simão passa a ser desenvolvido, justamente, a partir da chegada de Jesus a Cafarnaum. Além do mais, Jesus não chegou ali só: havia, com ele, sua mãe e seus irmãos, o que significava despesas de estadia e alimentação.

Todavia, também me parece claro que não houve (como muitos supõem) uma mudança de toda a família de Jesus, de Nazaré para CafarnaumRepare que João 2:12 finaliza, salientando: "e ficaram ali não muitos dias". Muito provavelmente nem Jesus, nem seus irmãos (que também tinham, em conjunto, uma empresa, só que de carpintaria em Nazaré) precisariam adquirir a posse definitiva sobre um imóvel em Cafarnaum, apenas, para utiliza-lo por uma curta temporada.

Todavia, deveras, Jesus havia conseguido uma habitação (uma casa) em Cafarnaum para a sua permanência ali. Isso me parece até algo premente, pois, não apenas seus irmãos (e eventualmente seus discípulos precisavam ser abrigados), mas, principalmente, Maria, sua mãe. É evidente que Jesus não teria tirado sua mãe de Nazaré para leva-la a Cafarnaum (ambas cidades da Galileia), para que ela habitasse sob condições precárias.

Todavia, nada justifica a alegação que alguns desatinados pregadores da "Teologia da Prosperidade" atual fazem, de que Jesus havia adquirido ali em Cafarnaum uma "Grande Casa de Praia", com a alegada capacidade de hospedar, ao menos, 21 pessoas. Para chegar ao número 21 nas contas das acomodações, eles consideram (de modo absolutamente errôneo, mas conveniente ao objetivo materialista de tal alegação) como acomodados ali, todos os 12 discípulos, mais todos os 7 irmãos de Jesus, e mais o próprio Jesus e sua mãe.

Repare que João 2:12 fala, apenas, em "seus irmãos", sem especificar se o número desses irmãos que, efetivamente, foram com ele e com sua mãe para Cafarnaum: se porventura fosse mesmo de sete, ou de seriam de apenas dois (o que já justificaria o uso do plural). Quem ficou tomando conta da carpintaria em Nazaré?

Além disso, decerto o número de discípulos que, a princípio, poderiam (mas não necessitariam) ser acomodados por Jesus em Cafarnaum era de apenas dois: Filipe e Natanael, os quais, inclusive, tal qual André, João, Pedro e Tiago (sendo que estes quatro ainda nem seguiam a Jesus por ocasião do dia da mudança dele para Cafarnaum), já eram, também, ambos originais de Betsaida, e decerto não deveriam viver como desabrigados, sendo, os mesmos, decerto proprietários de casas, ali.

Alguns meses depois desta curta temporada inicial do ministério do Senhor Jesus em Cafarnaum, conforme relatado em Marcos 6, versos de 1 a 5 (e, também, Mateus 13:54-58), podemos constatar que ele acaba por retornar, mais uma vez, para a cidade de Nazaré: "chegou à sua pátria, e os seus discípulos o seguiram." (Marcos 6:1). Após ensinar na sinagoga dali, apesar do povo local se admirar de sua sabedoria. eles não creram nele e diziam: 


"Não é este o carpinteiro, filho de Maria, e irmão de Tiago, e de José, e de Judas e de Simão? e não estão aqui conosco suas irmãs? E escandalizavam-se nele." (Marcos 6:3). Este verso apresenta uma forte evidência de que a primeira ida de Jesus a Cafarnaum, mesmo que acompanhado de sua mãe e (alguns de) seus irmãos, foi realizada como sendo algo apenas transitório, e não se tratou de uma mudança definitiva da família. 

Apesar de eu não encontrar uma prova cabal nas narrativas dos evangelistas, eu entendo, sinceramente, que após Jesus sair de Cafarnaum, iniciando a expansão da sua vida pública, tanto Maria, sua mãe, quanto seus irmãos que estiveram ali em Cafarnaum, também deixaram aquela cidade e regressaram a Nazaré, e a família retomou as suas atividades normais de carpintaria naquela cidade.

De modo que, toda essa conversa sobre Jesus ser possuidor de uma "grande casa de praia em Cafarnaum" é uma conversa originada a partir de gente tola, e destinada a gente ainda mais tola, tão somente com o intuito inimigo de Deus, de atiçar o coração de crentes incautos na direção da paixão pelas riquezas materiais e amor ao dinheiro (Ora, se o Senhor Jesus teve uma grande casa de praia em Cafarnaum, por que eu não poderia desejar ter uma, hoje, também?).

Mas, se não era uma casa própria (de Jesus ou de sua família) aonde Maria e os irmãos de Jesus estiveram acomodados naquela temporada em Cafarnaum e, também não era na casa de Pedro (ou de sua sogra), onde foi então que eles todos (Jesus, sua mãe e seus irmãos) ficaram acomodados? Muito provavelmente, ou na casa de Filipe, ou então, na casa de Natanael. Assim como Pedro e André tinham o seu endereço comercial em Betsaida, porém com endereço residencial em Cafarnaum, muito provavelmente o mesmo deveria ocorrer com Felipe e com Natanael.

Ao que tudo indica, muito pouca gente deveria viver em Betsaida, porquanto ela era uma localidade propicia apenas para o desenvolvimento do trabalho pesqueiro e do comércio específico que gira em torno deste negócio, enquanto Cafarnaum era uma cidade mais adequada à habitação familiar.

Todavia, para compreender com mais clareza como tudo se passou, é preciso voltarmos, mais uma vez, para Mateus 4:12-13, que diz: "Jesus, porém, ouvindo que João estava preso, voltou para a Galiléia; E, deixando Nazaré, foi habitar em Cafarnaum, cidade marítima, nos confins de Zebulom e Naftali;".

Quando João Batista foi preso, Jesus não estava na Galileia e, sim, ainda no sul, muito provavelmente nem mesmo na Judeia, mas, ainda além do Jordão, nas imediações de Betabara. Todavia ele irá voltar para a Galileia, e ele irá passar por Nazaré, mas ele não permanecerá em Nazaré: seu objetivo final, então, já era o de prosseguir viagem até chegar a Cafarnaum. Mas é evidente que ao passar por Nazaré, Jesus não deixará de aproveitar uma curta estada junto de sua família, afinal, foram várias e várias semanas em que ele esteve ausente, viajando, sendo batizado por João, fazendo o jejum de quarenta dias..

A futura ida da família a Caná, para comparecer àquela famosa celebração do casamento que ali aconteceu, é algo que foi conversado e planejado durante esta rápida estada de Jesus em Nazaré, e já ficou tudo devidamente acertado: Jesus iria comparecer às bodas de Caná, porém ele não irá para lá junto com seus familiares, mas, como ele estava ali em Nazaré apenas de passagem, devendo prosseguir viagem até Cafarnaum (sozinho), depois ele irá até Caná, a partir de Cafarnaum.

Jesus sai de Nazaré e prossegue viagem até Cafarnaum, aonde ele chega sozinho. Sim, na primeira ida a Cafarnaum após Jesus ser batizado, ele chega ali desacompanhado e sem acomodações definidas. Ora, para quem havia passado, bem recentemente, muitas noites dormindo em cavernas das imediações de Betabara e, ainda por cima, havia passado por uma prova de quarenta dias no deserto, que dificuldade haveria em acampar em uma barraca, ou mesmo dormir ao relento, numa praça ou num canto qualquer de Cafarnaum?

Somente após algumas várias caminhadas entre Cafarnaum e Betsaida, e vice-versa, de encontro e reencontro com André, João, Tiago e Simão (quem ele mudou o nome para Pedro), de provavelmente ter visto Natanael debaixo da tal figueira, e de ter ido ao casamento em Caná, acompanhado de Filipe e Natanael, onde ele reencontrou, também, com seus familiares, é que Jesus iria voltar para Cafarnaum, agora já acompanhado, se hospedando em uma casa que era de Natanael ou de Felipe, para permanecer, apenas, uma curta temporada.

Marcos narra, ainda, que, ao final do mesmo dia em que Jesus pregou na sinagoga, curou a sogra de Pedro e curou muitos outros doentes, ele ainda encontrou forças para, já pela madrugada do domingo, sair e procurar um lugar afastado para orar. “Simão e seus companheiros foram procurá-lo e, ao encontrá-lo, disseram: "Todos estão te procurando!" Jesus respondeu: "Vamos para outro lugar, para os povoados vizinhos, para que também lá eu pregue. Foi para isso que eu vim". Então ele percorreu toda a Galileia, pregando nas sinagogas e expulsando os demônios. (Marcos 1:36-39)

Essa última passagem de Marcos pode ser comprovada por Mateus, quando explica: “Jesus foi por toda a Galileia, ensinando nas sinagogas deles, pregando as boas novas do Reino e curando todas as enfermidades e doenças entre o povo.” (Mateus 4:21-23).

Bem, se Jesus houvesse adquirido uma grande casa de paria em Cafarnaum, então eu creio que ele não conseguiu ser um cara tão "esperto" quanto os crentes modernos, pois, ele não "prosperou" em tirar dela o devido proveito (a moda do "mundo crente materialista moderno"): Definitivamente, Jesus não soube permanecer como os fariseus modernos: atingindo um sucesso mundano, cobrando caro para pregar, sendo algo pesado para o povo carregar e gozando a vida em Cafarnaum.

Antes, ele, por fim, amaldiçoou aquela cidade, que ele verificou ter um povo tão recalcitrante contra a verdade: "E tu, Cafarnaum, que te ergues até ao céu, serás abatida até ao inferno; porque, se em Sodoma tivessem sido feitos os prodígios que em ti se operaram, teria ela permanecido até hoje. Eu vos digo, porém, que haverá menos rigor para os de Sodoma, no dia do juízo, do que para ti." (Mateus 11:23,24)

Nem seria necessário comentar que, ter a sua existência na Terra, considerada como algo ainda pior do que a existência de Sodoma, é a ignomínia das ignomínias para qualquer cidade. Porém, voltando ao nosso estudo de ordenamento histórico, a riqueza dos detalhes de narração, sobre esta fase inicial da vida pública de Jesus, fica mesmo por conta da sequência do livro de Marcos (pelo final do capítulo 1, e por todo o capitulo 2 e 3), enquanto Mateus, deixa tudo apenas sucinto, narrando:

“Notícias sobre ele se espalharam por toda a Síria, e o povo lhe trouxe todos os que estavam padecendo vários males e tormentos: endemoninhados, epiléticos e paralíticos; e ele os curou. Grandes multidões o seguiam, vindas da Galileia, Decápolis, Jerusalém, Judeia e da região do outro lado do Jordão.” (Mateus 4:24-25)

Muitos detalhes sobre estes mesmos primeiros dias de discipulado, de pregações e de sinais milagrosos, faltam no livro de Lucas e, apesar dele não perder a sequência cronológica certa, a partir do fim dos quarenta dias de provação após o batismo em Betabara, o narrador "salta no tempo", direto para um evento bem posterior, em que Jesus pregou sobre livro do profeta Isaías na sinagoga de Nazaré, cidade onde ele fora criado (mas já não vivia mais ali).


Mas fica claro que este foi um evento bem posterior, quando o próprio Jesus menciona: "... Sem dúvida me direis este provérbio: Médico, cura-te a ti mesmo; faze também aqui na tua pátria tudo que ouvimos ter sido feito em Cafarnaum." (Lucas 4:23), deixando claro, assim, que muitos eventos famosos de sinais e de curas da parte de Jesus já haviam ocorrido, antes daquele dia, em muitos locais, e não apenas em Cafarnaum.

Porém, em Nazaré, Jesus estava impedido de fazer milagres por causa da mera falta de fé do povo, e Jesus chegou a ser expulso dali e voltou para Cafarnaum: "... Em verdade vos digo que nenhum profeta é bem recebido na sua pátria." (Lucas 4:24)

Mas a narrativa de Lucas, que vem a seguir, é importante para que nós possamos perceber o quão difícil foi, de fato, a plena conversão de Pedro para a grandeza daquilo que era a proposta de Jesus (de deus) para ele: ser, não apenas SALVO, mas, também o líder dentre os "pescadores de homens", em uma ação que, futuramente, iria levar tanto Pedro, quanto o Evangelho, para muito além das fronteiras que ele, homem rústico, conhecia. Então Jesus realiza, ainda, mais um sinal para ele, Pedro, testemunhar, que resultou numa pesca abundante de peixes milagrosa. (Lucas 5:2-10).

"E vendo isto Simão Pedro, prostrou-se aos pés de Jesus, dizendo: Senhor, ausenta-te de mim, que sou um homem pecador. Pois que o espanto se apoderara dele, e de todos os que com ele estavam, por causa da pesca de peixe que haviam feito. E, de igual modo, também de Tiago e João, filhos de Zebedeu, que eram companheiros de Simão. E disse Jesus a Simão: Não temas; de agora em diante serás pescador de homens. E, levando os barcos para terra, deixaram tudo, e o seguiram." (Lucas 5:8-11).

Se esse evento marca o exato momento da selagem de Pedro para ser futuro Apóstolo, nem de longe ele significou ser o momento em que Pedro foi salvo (Pedro ficou apenas espantado). Lembre-se, por exemplo, que Judas Iscariotes também deixou tudo para se tornar discípulo de Jesus Cristo, e recebeu poder igual aos demais doze (Mateus 10:1-4). Assim, o que Pedro fez, então, não lhe transmitia salvação, ainda. Esse é o "mistério" da graça da salvação (que não tem mistério algum): 

“Se, com a tua boca, confessares ao Senhor Jesus e, em teu coração, creres que Deus o ressuscitou dos mortos, serás salvo” (Romanos 10:9). Desse modo, a comprovação do "dia da salvação' para Pedro chegaria, tempos depois, mediante o seguinte diálogo: "E vós, quem dizeis que eu sou? E Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo." (Mateus 16:15,16) ... Não tem coisa mais singela que a graça da salvação.
Sem dúvida me direis este provérbio: Médico, cura-te a ti mesmo; faze também aqui na tua pátria tudo que ouvimos ter sido feito em Cafarnaum.

Lucas 4:23
Sem dúvida me direis este provérbio: Médico, cura-te a ti mesmo; faze também aqui na tua pátria tudo que ouvimos ter sido feito em Cafarnaum.

Lucas 4:23

Enfim, muitas grandes coisas e inúmeras curas fez Jesus pela Galileia, e tornou-se, assim, muito famoso na Judeia toda, antes de podermos voltar a sequência da narrativa de João, que diz: “E estava próxima a páscoa dos judeus, e Jesus subiu a Jerusalém.” (João 2:13), mas não, sem antes, Jesus fazer algo muito importante: a devida eleição formal dos doze Apóstolos.

E aconteceu que naqueles dias subiu ao monte a orar, e passou a noite em oração a Deus. E, quando já era dia, chamou a si os seus discípulos, e escolheu doze deles, a quem também deu o nome de apóstolos (pois, até ali nenhum deles havia sido, ainda, confirmado com o apóstolo): Simão, ao qual também chamou Pedro, e André, seu irmão; Tiago e João; Filipe e Bartolomeu; Mateus e Tomé; Tiago, filho de Alfeu, e Simão, chamado Zelote; E Judas, irmão de Tiago, e Judas Iscariotes, que foi o traidor. (Lucas 6:12-16).

Agora, sim, o apostolado estava formalmente instituído mas, o treinamento daqueles doze homens, que agora passavam a ter seus destinos selados, ainda precisaria se intensificar ainda mais, antes deles receberem ordem com instruções, para sair e pregar as boas novas, primeiro às ovelhas perdidas de Israel (Mateus 10:6) e, depois ao mundo todo (Marcos 16:15).

Somente depois de vários meses é que o Senhor Jesus teria outra oportunidade de retornar a Betabara, para onde ele, de fato, se refugiou, por ocasião de uma perseguição (uma tentativa de apedrejamento que ele sofreu, em Jerusalém): 

"Procuravam, pois, prendê-lo outra vez, mas ele escapou-se de suas mãos, E retirou-se outra vez para além do Jordão, para o lugar onde João tinha primeiramente batizado; e ali ficou. E muitos iam ter com ele, e diziam: Na verdade João não fez sinal algum, mas tudo quanto João disse deste era verdade. E muitos ali creram nele." (João 10:39-42)

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Este trabalho de André Luis Lenz, foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição - NãoComercial - CompartilhaIgual 3.0 Não Adaptada.
 
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